CONSCIÊNCIA COLETIVA

O nosso Black Mirror de cada dia

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Curte no Insta. Posta no Face. Faz check-in no Swarm. Publica no Twitter. Avalia no Foursquare. Manda áudio no Whats. Nudes no Snapchat. Tudo assim, quase instantâneo e não necessariamente nesta mesma ordem. Fazemos isso várias vezes ao dia, em casa, na faculdade, no bar com a galera, no banheiro e até mesmo antes de morrer.

Dizer que usamos as redes sociais pra tudo hoje em dia beira o clichê. Afirmar que a tecnologia está cada vez mais presente também não é nenhuma novidade. Mas, assistindo recentemente a série Black Mirror percebo que o apocalipse tecnológico pode estar bem mais perto que imaginamos.

Os críticos dizem que Black Mirror é um tiro no estômago e realmente é. Um tiro de canhão, certeiro e avassalador. Impossível não assistir e não se sentir, no mínimo, incomodado com tudo que é apresentado. A Cada episódio, as vísceras da vida moderna são expostas no seu lado mais sombrio e tenebroso.

Saindo da tradicional descrição, preferi traçar um paralelo de cada capítulo com nosso famigerado cotidiano (utilizei aqui episódios das temporadas passadas, visto que as reviews da nova temporada estão disponíveis no site) . É uma maneira de mostrar que não estamos muito longe do que vemos na tela.

No episódio “The National Anthem” (temporada 1) um político inglês é chantageado e tem como pena a exposição humilhante em cadeia nacional. Hoje, basta ligar a TV de tarde para ver várias pessoas sendo expostas ao ridículo ao terem suas vidas e conflitos familiares dissecados em programas de auditório. Lá eles falam de tudo, do chifre do marido, do recalque da vizinha, do gay afeminado e da mulher que gosta de fazer sexo em público. Sem pudores e sem vergonha. Isso fica por conta de quem assiste. Mas assim como no episódio da série, fica a pergunta: se é a situação é tão humilhante por que assistimos?

Em “Fifteen Million Merits” (temporada 1), vemos um futuro moderno em que homens vivem rodeados de telões, correndo em esteiras por dinheiro e em busca do sucesso. Hoje, estamos sempre conectados, de preferência em várias redes, nada pode passar despercebido desde o simples acordar ao selfie no velório, tudo precisa ser digitalmente registrado. Não pedalamos em esteiras, mas vivemos na correria diária de estudar, trabalhar, passar nas provas, ser o melhor, estar sempre nas vagas, ter sucesso e muitas vezes não aproveitar em nada o sabor das vitórias porque se está sempre querendo mais. Uma amarga constatação que nos surge na velhice: o que eu fiz da minha vida?

No “The Entire Story of You” (temporada 1), temos apresentada uma sociedade regida por um chip que pode armazenar todos nossos atos e podemos consultá-los sempre que quisermos em aparelhos eletrônicos. Hoje, a maioria de nossas ações está na linha do tempo do facebook. Mas será que a realidade compartilhada é a mesma do nosso mundo real? Sem os filtros do instragram, estamos preparados para encarar nossas verdades e mentiras expostas, sem ressalvas, na sala de jantar?

Em “Be Right Back” (temporada 2), uma viúva fica obcecada num tipo serviço que faz com que pessoas mantenham contato com os mortos usando a tecnologia. Hoje, quem de nós sobrevive sem os aplicativos para medir as calorias consumidas, contar os km de uma corrida, envio de mensagem de textos, receitas. Conseguiríamos ser imunes a essa dependência? E quando somos devastados pela dor da morte de um ente querido, a quem recorremos? Seriam as religiões nosso entorpecente para aceitar a brevidade da vida? Ou talvez uma forma de perpetuá-la?

“White Bear” (temporada 2) discorre sobre uma mulher desmemoriada que desconhece suas origens e os rumos da vida, sendo caçada por pessoas mascaradas. Hoje, realizamos a nossa caçada diária nos programas policiais que nos permitem ser justiceiros e capazes de apontar o dedo e dissecar os erros alheios. E nós, vestidos da incorruptível bandeira da verdade, defendemos a pena de morte, o linchamento moral e físico dos banidos. Mas e se fosse um chegado nosso? Teríamos a mesma frieza ou jeitinho brasileiro falaria mais alto?

Em “The Waldo Moment” (temporada 2), um urso criado virtualmente por um comediante vira o centro do debate político nas eleições. Hoje, vemos as discussões eleitorais enviesadas e monopolizadas pela indústria política que tem marqueteiro, estilista, propaganda de efeito. Só não tem conteúdo, proposta, programa de governo nem resolução de problemas antigos. É um ciclo que alterna pessoas no poder, apenas. Como isso se mantém há tantos anos? Nós, tão conectados, ainda somos reféns do voto de cabresto. A propósito, você se lembra em quem voltou nas últimas eleições?

Verdades nem sempre são digeridas de primeira, é preciso ruminar e entender as nuances do roteiro. Charlie Brooker expõe o nosso Black Mirror de cada dia em duas temporadas. Há também um episódio de natal, que mais a frente será alvo de outro texto aqui. Todos os episódios comentados também estão disponíveis na Netflix.

 Se você procura as reviews da temporada mais recente lançada pela netflix, aqui estão :

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