CONSCIÊNCIA COLETIVA

Noblat, Roda Viva e Temer: Jornalismo à Chá da Tarde

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O jornalismo tem como função promover o desenvolvimento da cidadania através da boa informação. É dele o dever de desmistificar aspectos que possam permear qualquer assunto de interesse social. Ou seja, aquilo que tem importância para a vida das pessoas.

Infelizmente, o programa Roda Viva com o Presidente Michel Temer, exibido no último dia 14 de novembro, não cumpriu bem essa missão. Mais pareceu, ao misturar assuntos importantes e questões pessoais, um chá informal de fim de tarde.

Demorei um pouco para fazer esse texto por querer fugir da análise com viés de emoção política. Qualquer crítica precisa ser feita de maneira técnica e que inclua frieza e distanciamento. Além de, é claro, não atingir a dignidade de alguém. O que é premissa.

O primeiro fato que merece ser pontuado é o Roda Viva da TV Cultura. Diferente de outros tempos, como nas entrevistas com Gianfrancesco Guarnieri, Ayrton Senna e Lygia Fagundes Telles, algumas das melhores de sua história, o programa demonstrou no encontro com Temer carência de refino jornalístico.

Assuntos como a possibilidade de o Presidente escrever um romance, o uso de mesóclise pelo chefe de estado, a maneira como ele conheceu a primeira dama e o gosto de Temer por piano na infância dividiram espaço com as abordagens da PEC 241 (hoje PEC 55), da crise econômica e de denúncias de corrupção.

Tudo isso enquanto o país enfrenta um dos momentos políticos mais delicados de sua história. Até mesmo quando os temas mais sérios foram abordados, ficou a impressão de que eles não foram questionados como mereciam. Em alguns desses momentos, Temer fala durante bastante tempo sem que exista contraposição. Característica que confere tom de discurso político, não de entrevista.

A conduta deixa de lado formulações importantes sobre o jornalismo. Como as definidas por Habermas e Nelson Traquina. Onde o jornalista deve mediar e evidenciar as diferentes vozes existentes em uma sociedade. Trabalhando o melhor entendimento entre cidadãos, capital financeiro e estado para a promoção dos direitos de cada pessoa. (Qual a relação entre a vida pessoal de Temer e a solução de tensões sociais?)

Sendo assim, não teria sido bacana dedicar todo o programa ao momento político? Ou intervir mais nas colocações do Presidente? Ou ocupar o espaço destinado aos fatos menos importantes com a participação de representantes do MST, da UNE, do IPEA e do Conselho Nacional de Saúde? Não são esses os mais aflitos com as propostas do governo de Michel Temer?

Essas questões, que para nós parecem óbvias, escaparam ao radar da produção. Radar esse que não captou que Ricardo Noblat não parece viver, hoje, um bom momento como jornalista.

NOBLAT

É bem verdade que seus companheiros no programa da TV Cultura (Augusto Nunes, Veja/Roda Viva; William Corrêa, TV Cultura; Sérgio Davila, Folha de S.Paulo; Eliane Cantanhêde, Estadão; e João Caminoto, Grupo Estado) também tiveram atuações pouco inspiradoras. Mas a conduta de Noblat na entrevista com Temer, assim como seu comportamento depois, dá a ele o status de pior atuação.

Foi dele a pergunta com estilo de programa de fofoca: “Como foi que o senhor se apaixonou por Dona Marcela? Como foi esse descobrimento?”. E foi dele também os seguintes posts no Twitter: “Uma coisa que eu jamais observara: como Temer é um senhor elegante. Quase diria bonito. A senhora dele, também.” e “Com todo respeito: quem conquistou dona Marcela não se deixa abater por nenhuma dificuldade.”

Além da pergunta no Roda Viva ter sido pouco interessante, o primeiro post de Noblat no Twitter, propositadamente ou não, reproduz no “dele” a ideia de posse da mulher por um homem. Já a segunda publicação no microblog traz um elogio a Temer que soa como gratuito e impróprio. Afinal, ter sucesso no amor não significa capacidade de atuação política.

Noblat parece ter esquecido até mesmo de opiniões que defendeu em seu próprio livro, o A Arte de Fazer Um Jornal Diário, da editora Contexto. Na página 30, o autor diz: “O fato que provoca barulho não é necessariamente o fato importante. Importa o fato destinado a produzir mudanças na vida das pessoas.

Ora, quais mudanças importantes as observações feitas por ele sobre a vida pessoal de Temer e Marcela, ainda que interessem a parte curiosa do público, causarão na vida das pessoas? Fica a dúvida.

ESPERANÇA

Às vezes, quando algo que a gente discorda por completo acontece, é comum que bata desânimo, vontade de desistir de tudo… A gente chega até a pensar se vale mesmo a pena continuar lutando na contramão dessas coisas. E isso vez ou outra me “pega” quando penso sobre as tantas críticas atuais em relação ao nosso jornalismo.

Mas a resposta é que vale a pena, sim. Se entregar para a desesperança é como deixar de acreditar na amizade depois de ser deixado de lado por aquele amigo (a) que mudou da água para o vinho… Não vale a pena. São só “Casos Comuns de Trânsito”.

Crédito da Imagem de Capa: Beto Barato/Fotos Públicas.

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Recifense, Domingos é jornalista e educador social. Como educador, desde 2010, realiza abordagens sociais de pessoas em situação de rua que resultam em abrigamentos em unidades do município e garantias de direitos. Em 2014 e 2015, trabalhou como estagiário de Jornalismo nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco (assim mesmo, sem acento agudo). Atualmente, tem 25 anos. É romântico, fã de Belchior e idealista. Também escreve no blog Tracinhos.

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