CONSCIÊNCIA COLETIVA

Dia Mundial de Luta Contra a Aids: um papo com Daniel Fernandes, soropositivo do canal Prosa Positiva

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Hoje, 1º de dezembro, comemora-se o Dia Mundial de Luta Contra Aids, data que serve de alerta para chamar atenção para essa doença, ainda sem cura, e para conscientizar a população sobre métodos preventivos e desmistificar preconceitos. Esse ano, a campanha enfocará nos jovens gays de 15 a 24 anos das classes C, D e E. A ação busca discutir as questões relacionadas à vulnerabilidade ao HIV/aids, na população prioritária, sob o ponto de vista do estigma e do preconceito. Além disso, a ideia é estimular a reflexão sobre a falsa impressão de que a aids afeta apenas o outro, distante da percepção de que todos estamos vulneráveis.

Segundo o boletim epidemiológico 2013 sobre a vulnerabilidade, publicado no Portal sobre aids, infecções sexualmente transmissíveis e hepatites virais, o levantamento feito entre jovens, realizado com mais de 35 mil meninos de 17 a 20 anos de idade, indica que, em cinco anos, a prevalência do HIV nessa população passou de 0,09% para 0,12%. O estudo também revela que quanto menor a escolaridade, maior o percentual de infectados pelo vírus da aids (prevalência de 0,17% entre os meninos com ensino fundamental incompleto e 0,10% entre os que têm ensino fundamental completo).

O resultado positivo para o HIV está relacionado, principalmente, ao número de parcerias (quanto mais parceiros, maior a vulnerabilidade), à coinfecção com outras doenças sexualmente transmissíveis e às relações homossexuais. O estudo é representativo da população masculina brasileira nessa faixa etária e revela um retrato das novas infecções.

E a respeito desse tema de suma importância, tanta na questão social como de saúde pública, tivemos uma prosa por e-mail com Daniel Fernandes, do canal Prosa Positiva. Daniel é um jovem de 32 anos, nascido no  Maranhão, morou em Recife e Porto Alegre, mas agora reside em Goiânia-GO, é fotografo e ama tudo que envolve as artes. Esse ano, ele abriu o canal no Youtube Prosa Positiva, no qual fala sobre sorologia e temas transversais.

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anallógicxs Como você mesmo revela no primeiro vídeo do Prosa Positiva, você recebeu a notícia que era soropositivo de uma maneira um tanto natural, diríamos, de onde veio essa sua segurança? O que você já sabia sobre a AIDS e você já convivia com soropositivos?

Daniel: Descobri em agosto de 2011, quando ainda morava em Recife, por acaso em um exame de rotina. Alguns anos atrás eu já trabalhei voluntariamente em um SAE (Serviço de Assistência Especializada em DST, HIV/Aids), em Goiânia, (por ironia do destino, hoje faço meu tratamento nele), ajudando a assistente social, hoje uma grande amiga. As informações eram as básicas, formas de transmissão e que hoje em dia se tem uma qualidade e expectativa de vida melhor. Porém, até então, não convivia com ninguém positivo, ou pelo menos não sabia. Devido a fobia do preconceito social, as pessoas tendem a esconder sua sorologia.

anallógicxs : Como foi o processo de tratamento? Falo com respeito à sua reação com as medicações e o atendimento recebido, o processo se deu inteiramente pelo SUS?

Daniel: Comecei a tomar a medicação 5 anos depois da minha descoberta e foi mais por incentivo do canal, sempre tive resultados ótimos dos meus exames, carga viral baixa e CD4 (imunidade) alta. E na época que descobri ainda não existia o projeto 90-90-90 (me estabelecida pelo Brasil, perante a ONU, que consiste em ter 90% das pessoas com HIV diagnosticadas; deste grupo, 90% seguindo o tratamento; e, dentre as pessoas tratadas, 90% com carga viral indetectável). Exceto na primeira noite, a qual tive uma leve tontura, sempre me dei bem com a medicação, não tendo efeitos colaterais como algumas pessoas tem. Tomo apenas um comprimido por dia, o 3×1 ( Efavirenz, Lamivudina e Tenofofir). Desde o acompanhamento ao tratamento, sempre fiz pelo SUS. É gratuito, desde consultas a exames e medicação.

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anallógicxs : Você é militante do movimento soropositivo, se é que posso assim dizer, como a comunidade soropositiva enxerga esse novo governo? Qual a pauta que vocês reivindicam para  o atual governo e o que vocês temem?

Daniel: Falar de governo é complicado. Mas resumindo… estamos todos temerosos! Ainda mais agora com a aprovação dessa PEC horrorosa!

anallógicxs : Você é LGBT e soropositivo, duas comunidades que sofrem muito preconceito no meio social, o preconceito se intensificou na sua vida ao assumir sorologia? Como você lhe dar com o preconceito e com o estigma que os gays são soropositivos, tendo em vista o alto índice de contágio na comunidade?

Daniel: Ser gay e soropositivo não é nada fácil. Porém só descobri o preconceito na pele esse ano. E tento lidar da melhor forma possível. Nunca tive medo de assumir a minha sorologia, e agora é ela quem faz a seleção das pessoas certas para eu ter na minha vida. E acho incrível como a falta de informação nos deixa tão ignorantes.

anallógicxs : Quais são as principais inverdades sobre a AIDS que existem no senso comum e que te abordam a respeito?

Daniel: Algumas pessoas ainda associam um vivendo com HIV como a pessoa que tem AIDS dos anos 80/90, quando era tudo muito escasso de informação e medicamentos. E assusta alguns não saberem a diferença entre HIV e AIDS. Com a medicação em poucos meses você está indetectável, o vírus é controlado no seu organismo, no qual o risco de repassar é quase zero, e isso é comprovado cientificamente.

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anallógicxs : Como se deu a ideia do Prosa Positiva, seu canal no Youtube sobre sorologia, e que público você busca atingir?

Daniel: O projeto para o canal surgiu quando eu morava ainda em Recife, a ideia eram palestras, roda de conversa. Porém nunca dava certo, ainda não tinha falado da sorologia para minha mãe, apesar de que quase todo mundo já sabia, ela morando em Goiás e eu em Pernambuco, não facilitava e eu queria contar pessoalmente. Daí morando em Porto Alegre, estudei e trabalhei em uma escola de atuação para cinema, vi que eu precisava colocar em prática de alguma forma, foi então quando veio a ideia do canal. Porém não apenas para pessoas vivendo com o vírus do HIV, mas para todos, meio que um guia de informações, com participação de profissionais, outros Vivendo e também com entretenimento, como dicas de filmes, livros e séries. A ideia é atingir a todos. Pois quanto mais falarmos sobre, menos um tabu!

anallógicxs : Como tem sido o retorno do público para com o canal? Quais os frutos colhidos e como você tem ajudado as pessoas?

Daniel: O retorno vem gradativamente. E ainda estou aprendendo a lidar com tudo isso, principalmente com alguns assédios. Mas tem sido bastante gratificante. Várias pessoas do país vem no privado para tirar dúvidas, agradecer pelo projeto, desabafar. Às vezes só não tenho tempo sobrando que gostaria de retornar a eles .

anallógicxs : O que você almeja e planeja para o futuro do Prosa Positiva?

Daniel: Espero que o canal cresça! Ele não é meu. É nosso. É de todos. Sempre deixo aberto espaço para que quem puder ajudar. Eu sou só um porta voz. E principalmente desejo que as pessoas tenham maior conscientização do tema. Não vamos excluir ninguém, e tão pouco achar que é um ponto final. Pelo contrário… É uma vírgula.

anallógicxs : Quer deixar um recadinho para o público sobre esse dia Mundial de Combate à AIDS?

Daniel: É importante fazer sempre o teste de HIV, independente da sua orientação sexual! Não tenha medo. Quanto mais cedo diagnosticado, melhor para o vivendo! É gratuito e sigiloso. Se deu negativo, continue se prevenindo! Se deu positivo… vamos nos cuidar para vivermos mais e melhor! E a todos, ter consciência de que viver com HIV não é algo para ter vergonha e nem medo.

João Gusmão é formado em Letras pela UFPE, é professor, corretor e freelancer. Escreve sobre música e comportamento, apreciador de música brasileira e literatura contemporânea. Publica mensalmente no dia 8, save the date | Para segui-lo no Facebook: /joaoagusmao

  • Camila

    Emocionado com esse post, parabéns.

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