CONSCIÊNCIA COLETIVA

A crescente representatividade LGBT nas HQs da DC Comics – Parte 2

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Já faz algumas semanas que eu falei aqui da Batwoman e de como a DC Entertainment tem feito progresso com a representatividade LGBT nos últimos anos em seu universo fictício de super-heróis. Como uma andorinha só não faz verão, neste texto quero abordar outros proeminentes personagens LGBT que viram um bom momento em suas histórias nos últimos anos!

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  • Alysia Yeoh

No mesmo ano que todo mundo se decepcionava com a proibição da DC ao casamento lésbico da Batwoman, a escritora Gail Simone nos dava alguma alegria no título da Batgirl ao revelar que a colega de quarto e melhor amiga de Barbara Gordon era uma mulher transgênero. Embora ela não seja a primeira personagem trans da DC, a notícia ganhou bastante atenção da mídia e Simone continuou promovendo a personagem como uma coadjuvante importante durante todo o tempo que esteve à frente de Batgirl.

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Alysia Yeoh foi criada como uma ativista e amiga leal à Barbara e logo conquistou os leitores. Quando a DC removeu Simone do título para que Batgirl fosse colocada numa nova direção artística pelas mãos de Brenden Fletcher, Cameron Stewart e Babs Tarr, houve uma séria preocupação sobre o que aconteceria com a personagem e a própria Simone lamentava publicamente que sua remoção de Batgirl a impediria de trabalhar histórias que ela tinha planejado. Pra aumentar a complicação, na nova fase Barbara Gordon iria para o bairro universitário de Burnside, mudando-se do apartamento que dividia que com Alysia.

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Apesar de admitirem não terem muita ideia do que fazer com Alysia logo que assumiram o título da heroína ruiva, Fletcher, Stewart e Tarr a mantiveram como uma presença recorrente na vida da Batgirl até enfim expandirem sua história: a personagem ganhou uma namorada e, em outubro do ano passado, a amiga da Batgirl pôde casar com sua esposa numa edição histórica! Para melhorar ainda mais, personagem também foi incluída em DC Comics Bombshells.

  • Bissexuais sim e com orgulho!

Por muitos anos, dizer que um personagem era bissexual envolvia colocá-lo em relacionamentos exclusivamente heterossexuais enquanto ele flertava aqui e acolá com algum outro personagem do mesmo sexo. Esse foi o caso de Constantine. Revelado bissexual em 1992, através de diálogos, o poderoso mago era muito raramente mostrado se relacionando de forma sexual ou romântica com outros homens. Por anos, esse era apenas um mero detalhe da sua personalidade que a maioria dos roteiristas não achava importante o bastante para ganhar atenção – embora ele fosse visto com certa frequência se envolvendo com mulheres.

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A situação começou a mudar somente em 2013, quando o popular mago ganhou uma nova revista solo que logo em seus primeiros capítulos explorou a bissexualidade de Constantine abertamente, mostrando-o se envolvendo com outros homens, assim como mulheres. Infelizmente a qualidade do título não era das melhores, resultando em seu cancelamento pouco tempo depois. Em 2015, o personagem ganhou uma nova chance com Constantine: the Hellblazer, publicada este ano no Brasil como Constantine: Hellblazer pela Panini. Buscando apresentar um novo olhar sobre o personagem e resgatar alguns elementos de suas origens, os artistas responsáveis pelo título, Ming Doyle e James Tynion IV, mostraram um Constantine ainda mais confortável com sua sexualidade.

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Tal ato veio de forma reconfortante uma vez que a série de TV do personagem pela NBC, lançada em 2014 (e cancelada já no ano seguinte), vergonhosamente fez questão de propagar aos quatro ventos que seu Constantine, interpretado por Matt Ryan, era heterossexual. A justificativa do produtor executivo Daniel Cerone era justamente a de que o personagem não havia sido mostrado se relacionando com homens ao longo de seus mais de 20 anos de existência nas histórias em quadrinhos, logo por que se preocupar em mostrar isso na tevê? Felizmente, Doyle e Tynino IV estavam dispostos a mudar isso.

Quem também saiu do armário como bissexuais foram as Sereias de Gotham: Mulher-Gato, Arlequina e Hera Venenosa. Ano passado, Selina Kyle deu seu primeiro beijo em uma mulher, sob o roteiro de Genevieve Valentine. Considerada uma das melhores fases da personagem escritas até hoje, a Mulher-Gato de Valentine foi um momento ideal para introduzir um elemento queer na história da personagem. Considerando o passado extremamente sexual da anti-heroína e como seu conceito pode ser muitas vezes resumido a um velho fetiche masculino, sua primeira experiência como uma mulher bissexual poderia ser visto apenas como apenas a realização de mais um fetiche para agradar ao público masculino.

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Porém, Valentine marcou sua passagem pela revista solo da Mulher-Gato com uma trama profundamente íntima e emotiva, que levou a personagem a um novo e elevado patamar. Dessa forma, o beijo entre Selina Kyle e Eiko Hasigaway se tornou um desenvolvimento a mais para Selina, um genuíno momento de descoberta que a autora trabalhou muitíssimo bem. A arte de Garry Brown também ajudou a dar um tom distinto a todo o arco, evitando as típicas sexualizações tão comuns nas HQs americanas.

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Igualmente importante foi a decisão da DC Comics de oficializar Harleen Quinzel, a Arlequina, e Pamela Isley, a Hera Venenosa, como um casal. Desde a criação da Arlequina por Bruce Timm e Paul Dini para Batman – A Série Animada, as personagens tinham um dos relacionamentos mais legais de se acompanhar no Universo DC. Elas eram amigas e parceiras de crime e se importavam uma com a outra e se ajudam mutuamente. Era visível como o relacionamento de Arlequina com Hera Venenosa era exatamente a antítese do relacionamento abusivo que a personagem tinha com o Coringa. Pamela até mesmo se posicionava contra o namoro bizarro dos dois e estimulava a parceira a se emancipar definitivamente do criminoso.

A primeira confirmação do namoro veio através do Twitter, em junho do ano passado, durante um papo dos artistas responsáveis pelo título solo da personagem, Amanda Conner e Jimmy Palmiotti, com os leitores da revista. Mais do que confirmarem que as duas são namoradas, os roteiristas também explicaram que elas não estão num relacionamento monogâmico, o que também é ótimo! A decisão de evoluir esse relacionamento do campo da amizade para o campo romântico provou-se ser um dos maiores acertos da editora nos últimos tempos, já que até resultou na palhaça do crime finalmente se libertando da sombra seu ex maníaco definitivamente.

No momento, Arlequina é uma das personagens mais populares da DC, o que apenas aumentou com sua presença em Esquadrão Suicida nos cinemas, numa performance muito elogiada de Margot Robbie. A revista solo da personagem ainda conseguiu ser a mais vendida de agosto deste ano nos EUA, portanto sua bissexualidade declarada é apenas algo a ser celebrado. Além disso, a própria Margot Robbie conseguiu convencer a Warner Bros a deixá-la produzir o filme solo da personagem.

Além da presença de Robbie nos dar esperança para um tratamento mais digno à personagem e já se fala na presença de Hera Venenosa no filme! Além do Universo DC tradicional, o namoro de Arlequina e Hera Venenosa também está sendo explorado na terra paralela de DC Comics Bombshells, que mostra as mulheres da DC liderando a luta na Segunda Guerra Mundial.

Na parte final desta série de textos, vamos falar dos personagens gays da DC, da representatividade LGBT nas séries de TV e das expectativas que temos para o futuro não só da editora, mas também da indústria de HQs como um todo!

Professor de inglês, DCnauta, Nintendista e aspirante a Mestre Pokémon, gosto de usar minhas horas vagas para ver seriados, ler HQs, jogar, escrever e, claro, problematizar.

1 Comment

  1. Poxa que matéria legal, eu acompanho a DC (mais precisamente Batman, Liga da Justiça e Superman) e nem tava sabendo da Mulher Gato, Hera, Arlequina, muito legal mesmo. Que a repercussão seja positiva!

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