CONSCIÊNCIA COLETIVA

Descobertas no 145

em Autoral/Crônicas por

Vocês sabem que hoje nós temos inúmeros canais onde podemos conversar com estranhos, criar nossas próprias máscaras, imaginar novos personagens e, antes de tudo, descobrir um pouco sobre nós mesmos(as). Pois é, nem sempre foi assim, há alguns anos, conseguir uma conexão de internet era quase impossível. Na era da net discada, as tardes de sábado eram cultuadas. Quando paro para pensar, quando volto no tempo e me vejo aos 15 anos; um jovem cheio de sonhos e incertezas, sem um smartphone à disposição, buscando descobrir o mundo e suas coisinhas sujas na calada da noite, bate uma saudade, um certo tipo de nostalgia desconcertante.

Lembro que o primeiro pênis, a primeira vagina, a primeira revista de nudez, o primeiro filme pornô, tudo, mas tudo mesmo, só foi visto, após a elaboração e concretização de inúmeros planos, alguns executados na calada da noite, outros, mais corajosos, na companhia de amigos(as). No famoso cine privé da band, aquele que passava logo após o programa retrô do Otávio Mesquita, era possível vislumbrar lindos seios, bundas masculinas e pelos pubianos. Naquela época, admitam, um leve movimento de câmera que mostrasse algo além disso era um presente, um momento que ficaria guardado por dias na memória. Cansado da logística que envolvia “esperar todo mundo de casa dormir” e “ter uma tv à disposição”, passei a ficar atento, esperando uma oportunidade que significasse novos caminhos e descobertas.

Certo dia, entre uma aula chata e outra, escutei duas jovens, que cursavam três séries acima da minha, falando sobre um novo serviço telefônico onde era possível, UAU, conversar ao mesmo tempo com várias pessoas.  Como eu disse, a internet era um tesouro, e as famosas salas de bate papo do uol ainda não haviam trilhado o seu caminho para  o estrelato.

Para  entrar nesse paraíso de possibilidades, era preciso digitar apenas três preciosos números: 1 4 5. Nos primeiros minutos de uso, percebi que a minha imaginação viajava quilômetros, se embebedando naquele cruzamento de vozes. É isso mesmo, gente! A primeira Matrix acessada pelo povo no Brasil se chamou 1, 4, 5.

O disque amizade, como era conhecido, foi lançado ainda nos anos 80, mas amores, quem tinha telefone em casa naquela época? Orelhões disponíveis ? – raríssimos.  A engenharia era arrojada e complexa: 4 pessoas dividiam o espaço, em uma espécie de campo metafísico cheio de energia e barulho. A falta de organização, as falas não compreendidas faziam parte do jogo de cena. Quanta teatralidade. Quem não tinha telefone fixo precisava encontrar um orelhão pouco utilizado nos arredores. Era muito comum, por sinal, ver jovens fazendo filas.  A primeira frase que você ouvia ao entrar na matrix era: tá afim de quê? – quanta honestidade e ousadia (e ainda dizem que os aplicativos de encontros atuais é que são eficientes). Eu, bem, eu estava afim de muita coisa, “cara”, só não me senti, por muito tempo, seguro para revelar. Na primeira noite de uso, lembro que pensei : caceta, tá todo mundo gozando mesmo.  

O medo geralmente faz com que a gente se cale por alguns dias. Diante da novidade, preferi ficar ouvindo as histórias, algumas das mais absurdas. Conheci personagens famosos(as), todos de Pernambuco, visto que naquele primeiro momento a rede ainda não conseguia conectar o país todo. Fui fã de carteirinha da lésbica má, uma voz marcante, que passeava em todas as salas com um propósito especial: fazer piadas com os machinhos escrotos que, como ela dizia, “tratavam mulher da forma mais barata”. O divertido bêbado da madrugada, que tinha uma voz de galã mexicano, adorava fazer amizades e colocava sempre o telefone perto do rádio, de repente ficava todo mundo ali, ouvindo aquele pagodinho em alta na cena musical recifense.

Para quem desejava sexo ardente, daqueles que arrombam tudo, tinha o tal do metedorsempre disposto a xingar, com consentimento, quem assim desejasse. Fiz amizade mesmo foi com a patricinha do arruda, que me dava dicas de filmes, transbordava carência e estava ansiosa para arrumar um namorado. Por sinal, foi a patricinha que me disse pela primeira vez o que era xuca (risos).

Foi nele que escutei alguém relatar, didaticamente, quais as melhores formas de fazer um outro homem gozar, escutei inúmeros gemidos, conheci gays assumidos e gays que faziam do bate-papo a única via para sentir o sabor da liberdade; ouvi relatos sobre o uso da camisinha e fiquei por dentro das notícias e acontecimentos de bairros que eu nem imaginava que existiam. Quando a conversa com alguém ficava mais interessante, íamos para uma “sala” privada. O ritual era simples, a pessoa tinha que dizer, do outro lado da linha, os dois últimos dígitos do seu telefone (o final), e a gente, do lado de cá, sussurrava o nosso “final”, um mecanismo que, ao meu ver, exala modernidade até hoje. O valor cobrado por minuto, claro, era um abuso. Eu tive que enfrentar diálogos intermináveis em casa, explicando, de forma bem desconcertante, o que eram esses três números.

 

O mais importante, sem dúvida, é que nesse serviço vivíamos o que não tínhamos coragem, experimentávamos aquilo que a vida real ainda não nos permitia. Fazíamos essas amizades pouco duradoras, mas cheias de expectativas. Perdíamos noites acompanhando o desenrolar das narrativas e, acima de tudo, éramos capazes de imaginar. Sem o aparato visual que temos hoje, todo o desenrolar dos acontecimentos, todo o ritual de masturbação, exigia um certo esforço criativo.

A chegada de tecnologias como essa trouxe mais problemas que soluções, ainda é cedo para avaliar. De certa forma, estamos ainda entorpecidos com essa virada, encantados com essa possibilidade quase infinita de comunicar. Salas de bate-papo, hoje mais arrojadas e com diversas configurações, podem se tornar armadilhas, principalmente quando nos tornamos reféns dessa cultura do mascaramento, impedidos de criar vínculos fora delas. Sem falar que esses espaços são, até hoje, utilizados como esconderijo para que as pessoas depositem, não só suas fantasias, mas também os seus medos, as suas violências e as traições do imaginário.

Por fim, me pego imaginando quantas histórias, quantas risadas, mentiras, gemidos e orgasmos moraram naqueles três dígitos e diante desse relato saudosista, só me resta fazer uma simples pergunta: qual o teu final? 

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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