CONSCIÊNCIA COLETIVA

Família, sou LGBT. Posso pagar minha aceitação com boleto bancário?

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Tem uma citação da filósofa Hanna Harendt que diz o seguinte: “toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”. Não sei em que livro está esta citação e nem pretendo transformar esse texto num exemplar esquizofrênico dos gêneros acadêmicos. Vou falar das emoções humanas de quem sente que tem que comprar a aceitação de sua família.

Nos últimos meses tenho conversado bastante com a galera corajosa e alegre da comunidade LGBT e tenho escutado muitas angústias e tenho concluído que para manter a esperança e a alegria expressas nos gestos e ações dessas pessoas, que admiro mais a cada dia, é preciso pagar um preço, e para algumas delas, a expressão deve ser entendida no sentido literal. É isso mesmo! Para algumas pessoas não ser expulso(a) de casa e do convívio dos familiares implica em assumir as finanças do lar.

Temos aí um problema muito claro!!! Se você é LGBT e não tem renda, terá uma grande dificuldade de permanecer entre os “seus”. Claro que isso não é uma máxima universal, mas estamos falando de uma porcentagem significativa da população. Sou daqueles que, se um ser humano sofre por qualquer razão defendo que se faz necessário entender e se possível intervir nesse fato pessoal/social. Se nesse momento você está desesperado porque estava pensando em se abrir para os seus parentes, mas ainda não tem sua independência financeira, talvez ainda reste uma esperança: você pode começar pagando com seus dotes domésticos. Afinal, todo mundo sabe como explorar a galerinha que precisa se submeter.

É Obvio que não me refiro aqui às contribuições necessárias de todos(as) da família para que a mesma se sustente em todos os sentidos do termo, mas da condição de que se você teve o descaramento de ser LGBT e não tem recursos, você pode sair de casa. Nossa família não é capaz de te aceitar assim. E aí quando alguém perguntar por aquele filho/a, a resposta pode ser essa: ah, perdeu a cabeça… Mas ele/a é meu/minha filho/a, continuo o/a amando.  Como fazer para entender esse tipo de amor não dou conta de explicar nesse texto sem falar um palavrão. Deixo ao leitor o direito de fazê-lo!

Não sei se já passou pela cabeça dos pais que no coração da pessoa que paga por toda farra além de produzir a casa para receber a namorada daquele filho querido e muitas vezes querido também de quem o faz, há um desejo imenso de poder trazer seu/sua companheiro (a) para um almoço em família ou mesmo um lanche no fim da tarde. Mas isso é pedir demais. Você até pode trazer um amigo/a aqui em casa que a gente se esforça para não ser grosseiro com ele/a, mas apresenta-lo como seu/sua namorada sendo você cum “desviado(a),” já é pedir demais!

A essa altura você já deve ter perguntado por que a pessoa que tem condições de sustentar a casa dos pais e muitas vezes bancar toda a família simplesmente não sai de casa? As respostas são muitas e certamente o silencio é uma delas, mas um caminho possível para a compreensão desse fato (não falo fenômeno porque traria a ideia que pilantragem é uma coisa natural) cada vez mais comum é tentar colocar-se no lugar do outro(a) num exercício rápido de compaixão.

Todos(as) nós sabemos que a relação capitalista também reina na família faz muito tempo, tendo ela o arranjo que tiver. Mas estamos jogando a lupa numa relação doentia ligada a uma questão de identidade que coloca a pessoa numa situação de fragilidade que em muitos casos acaba culminando num sentimento culpa e pode leva-la a um alto nível de depressão e inclusive ao suicídio. Diante desses casos (bem comuns), compete a nós, pessoas que militam pelos direitos humanos e dignidade humana, arregaçar as mangas e dentre outas coisas, fomentar um grande e importante mutirão de solidariedade e escuta. Fazer com que essas pessoas tenham o direito de falar de suas experiências pode leva-las a repensar suas construções afetivas e optar pela liberdade via amor próprio. Família definitivamente, não é lugar de comprar amor, companheirismos e cumplicidades. Essas coisas a gente aprende com quem de verdade gosta da gente e quer nosso bem independente de qualquer coisa!

A esperança também reside no fato que a gente vai aprendendo a ser humano vivendo e experimentando. Para terminar, vou citar um conselho de outro filósofo que também gosto muito, Nietzsche: “torna-te quem tu és”. Talvez tornar-se aquilo que se é seja a conta mais cara a ser paga. Mas a gente pode dividir.

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