CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos: Elis (O filme)

em Cinema/O que achamos por

Review

Nota de Diogo
6/10
Média
6.0/10

Repórter: Qual sua opinião sobre o que está acontecendo no Brasil?

Elis: A barra tá muito pesada, o País tá sendo governado por gorilas, sem querer ofender os gorilas!

(Holanda, 1969)

Este trecho da coletiva de imprensa durante turnê realizada na Europa revela a espontaneidade e o jeito sincero da cantora Elis Regina. Se hoje os artistas do mainstream nacional evitam falar sobre política e temas espinhosos, a Pimentinha não hesitava em revelar suas opiniões sobre a ditadura militar, a rigidez do mercado fonográfico e a censura de suas músicas. Entretanto, a ousadia marcante da cantora faltou aos realizadores do longa que leva seu nome. Dirigido por Hugo Prata, Elis: o filme conta sem grandes surpresas a vida polêmica e as histórias controversas da estrela que marcou a nossa MPB.

A produção de cinebiograficas nacionais normalmente opta pelo enredo linear, apresentando os fatos quase que didaticamente. Já vimos isso em Mauá (1999), Cazuza (2004), Olga (2004), Zuzu Angel (2006), Tim Maia (2014). Poucos filmes saem dessa zona de conforto e se aventuram em montagens mais complexas e criativas. As pressões por bilheteria, a expectativa de exibição na TV, a subestimação do público e o monopólio da Globo Filmes no mercado cinematográfico podem ser considerados fatores motivadores desse cenário.

Elis: o filme segue a vibe de seus antecessores. A produção apresenta a cantora gaúcha que foi ao Rio de Janeiro em busca do sucesso. Nas quase duas horas de projeção conhecemos os primeiros passos de Elis rumo ao estrelato, passando pelos altos e baixos da carreira musical até o seu falecimento. O enredo galopante prejudica o resultado da obra por apresentar os fatos numa narração quase videoclíptica.

Os roteiristas Luiz Bolognesi, Vera Egito e Hugo Prata destacam no filme a vida amorosa da cantora e seus relacionamentos com Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado), César Camargo Mariano (Caco Ciocler) e Nelson Motta (Rodrigo Pandolfo). Há uma ênfase no romance e por isso outras partes intrigantes da vida da artista ficam em segundo plano, como a rixa com outras cantoras da época, a disputa por espaço no mercado musical e o envolvimento com as drogas. É visível a preocupação dos escritores em preservar a imagem da artista.

Por outro lado, o filme apresenta alguns fatos críticos da carreira de Elis como a participação da cantora na abertura das Olimpíadas do Exército em 1972, as charges do cartunista Henfil do Pasquim e as vaias no Festival Phono 73. Ainda que superficialmente, o público pode acompanhar o receio da cantora em enfrentar o regime militar e seu posterior engajamento nas críticas à ditadura.

Ainda no campo da carreira musical, o filme aborda o crescimento artístico da cantora e como a Elis que conhecemos no palco foi moldada por seus produtores. Gestos, cabelo, repertório e reviravoltas artísticas surgiram nos bastidores, catalisadas por seus empresários. Resguardadas as devidas proporções, boa parte dos artistas de hoje continua seguindo essa cartilha. A grande diferença é que Elis transcendeu essa influência, sobretudo no ápice profissional, e conseguiu impor sua personalidade ao show biz.

Sem dúvida, o grande trunfo do filme é a atuação de Andréia Horta no papel de Elis. A atriz mergulhou no projeto, foram três meses de preparação. Presente em quase todas as cenas, suas aparições impressionam pela semelhança com a artista, os trejeitos ao cantar são idênticos. Mesmo com doses de caricatura, sobretudo nas cenas de dublagem musical, sua interpretação é visceral e convincente. Foi um grande acerto a escalação dela para o papel.

A maquiagem e figurino estão impecáveis e ajudaram sobremaneira no processo de caracterização dos personagens, sobretudo na composição da Elis de Andréia. Some-se a isso o trabalho de direção de arte que resgatou vinis, radiolas, fitas, televisores e toda a mobília da época de forma primorosa. A trilha sonora explora os clássicos da cantora, mas também apresenta algumas músicas menos conhecidas do grande público.

Com acabamento impecável, Elis: o filme é roteirizado em ritmo de novela global, mas rende grandes momentos na telona, especialmente pela atuação vigorosa de Andréia Horta. Contestadora da redoma musical imposta pelas gravadoras, Elis merecia uma produção mais audaciosa. Apesar disso, ver nas telonas a história de uma das maiores estrelas da MPB é um grande feito do cinema nacional. Vale a pena conferir, sair cantando e torcer para que os artistas de hoje se inspirem na biografia da Elis e usem a arte para denunciar o grave momento político que vivemos.


“Alô, alô, marciano.

Aqui quem fala é da Terra.

Pra variar estamos em guerra.

Você não imagina a loucura.

O ser humano tá na maior fissura porque

Tá cada vez mais down the high society…”

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