CONSCIÊNCIA COLETIVA

O Caminho do amor

em Comportamento/Opinião por

Ninguém sai impune ao amor. Todos nós sofremos em algum momento da vida ou também fazemos sofrer, isto é fato. E com o sucesso dos aplicativos de paquera, as reclamações só aumentaram tendo em vista a falta de comprometimento das pessoas e as relações vazias atuais. “Vivemos tempos líquidos. Nada é pra durar”, já disse Bauman. E um dos pontos fortes da discussão acerca da instabilidade das relações é, certamente, o leque de opções disponíveis e que hoje estão a um clique.

Em tempos de Tinder, basta um match para se ter contato com alguém que te pareceu interessante. E com a mesma rapidez que chegam, vão. Porém, em se tratando de um potencial parceiro(a), qual seria a nossa melhor escolha em meio a uma variedade de alternativas, seja em aplicativos ou na vida real? Barry Schwartz discutiu energicamente os pontos negativos sobre ter várias opções à disposição, o que chamou de “Paradoxo da Escolha” (que já foi tema de outro texto meu). Grosso modo, Schwartz trata das relações entre economia e psicologia e defende a ideia de que mais é menos. Ter mais possibilidades não é necessariamente algo bom. Este ponto de vista, inicialmente discutido sobre o comportamento de compra, também pode ser levado para o campo amoroso.

A antropóloga e estudiosa do comportamento humano Helen Fisher levanta a questão deste “excesso cognitivo”. Baseada na coleta de dados ela afirma que conseguimos administrar entre 5 e 9 alternativas, depois deixamos de escolher (a inércia apontada por Schwartz). Mas defende a ideia de que a tecnologia não mudou o amor, mudou apenas a forma de galantear. Os aplicativos seriam apenas a primeira parte: as apresentações. E a tecnologia não vai mudar por quem nos apaixonamos, já que isso envolve questões biológicas.

Neste caso, tudo depende da química. Literalmente. É no cérebro que tudo ocorre e isso será determinante entre haver apenas um, ou alguns encontros casuais ou se torne um relacionamento duradouro. E às vezes o amor acontece. Mas ele é um vício, uma obsessão. Estudos já comprovaram que o amor age de forma similar à cocaína e também leva ao que a psicologia chama de “pensamento intrusivo”, quando não conseguimos parar de pensar naquela pessoa.

Quando amamos e a relação vai bem, ótimo. Quando vai mal temos uma tendência à depressão, ao recolhimento, a lembrar dos momentos felizes, daquela música especial, etc. Mas a ciência explica que devemos achar outra maneira de aumentar a dopamina (ligada, entre outras coisas, ao amor romântico). E alimentar lembranças é estimular os mesmos circuitos cerebrais. Esqueça! Mas não diga: “Não vou mais pensar em fulano(a)”! De acordo com a programação neurolinguística o “não” é uma abstração. Para não pensar, você precisa pensar! Apenas desapegue e busque atividades prazerosas.

A antropóloga ainda divide as nossas relações em três grandes sistemas: desejo sexual, amor romântico e apego. Estes sistemas podem ou não agir em conjunto e é por isso que, biologicamente, podemos amar mais de uma pessoa de uma só vez. Já que se pode sentir apego por uma pessoa, amor romântico por outra, desejo sexual por uma terceira. Polêmico, não?

Mas o amor não é constituído apenas por impulsos biológicos, também envolve questões culturais. Nossas escolhas são influenciadas pelos julgamentos que construímos com nossas vivências desde a infância.

Em uma das falas apresentadas em um TED Talk, Helen Fisher relata um história que ouviu sobre um estudante da pós-graduação que estava super apaixonado, mas não era correspondido. Os dois estavam em uma conferência em Pequim e o rapaz, ciente dos estudos com relação ao amor romântico, decidiu colocar a ciência em prática. A ideia era fazer algo novo com a moça e ajudar no aumento da dopamina no cérebro e fazê-la se apaixonar por ele. Convidou a moça para algo diferente, um passeio de riquixá (meio de transporte em que uma pessoa puxa uma carroça em que se encontram duas pessoas). Então fizeram o passeio, que acabou sendo bastante divertido. Em meio a gritos e risadas eles descem do riquixá após uma hora de passeio e ela diz: “Isso não foi incrível?” e “Nossa, como aquele condutor do riquixá era lindo!”.

Pois é, o amor não é simples. “Amores não se encomendam como vestidos”, disse Machado de Assis em “A mão e a luva”. E a verdade é que é tudo meio louco, meio incompreensível e que pode te fazer sofrer ou te libertar. E existem momentos dolorosos, mas não nos cansamos e seguimos, trilhando um caminho repleto de encontros, sensações e desistências. Certa vez vi em um blog uma frase que dizia: “o amor é um lugar sem saída”, então, se é assim, que cada um encontre a sua própria prisão, o sentido do amor pode residir na tentativa de fuga.

Everly é formada em Letras, estudante de Direito e atua em área relacionada ao Direito do Consumidor. Escreve, principalmente, textos de opinião sobre os mais variados temas e é apaixonada por viagens. Publica mensalmente dia 30, save the date Para segui-la no instagram: @everlynascimento.

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