CONSCIÊNCIA COLETIVA

A atual música brasileira e sua cegueira político-social

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Nos versos da música “Alegria, Alegria” cantados e entoados por décadas na voz de Caetano Veloso, o compositor falava dos tempos difíceis e massacrantes do período de repressão da ditadura civil militar que condenou o Brasil durante 21 anos, vitimando milhares de pessoas. Apesar de intitulada “Alegria, Alegria”, sua letra e sentido lírico não denotam em nada momentos de felicidade e satisfação. Caetano magistralmente buscou apresentar toda sua revolta e dor com o cenário político-social da época. Falou através da música, pois era uma das únicas formas que existia para expressar sua opinião sem ser censurado e, consequentemente, preso, torturado e/ou morto. Foram tempos difíceis. Época onde o alcance dos gritos de liberdade e luta eram de difícil abrangência. Tempos em que o advento da informação era limitado e os que existiam eram claramente tendenciosos e apoiadores do regime ditatorial. Artistas como Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Elis Regina, Milton Nascimento, dentre outros, cantaram suas vivências e indignações em canções de sentidos diretos e/ou indiretos.

“Esses artistas procuraram observar de que maneira a situação sociopolítica – censura, controle, repressão, cerceamento de liberdades – imposta pela ditadura foi determinante na forma e nas escolhas discursivas, sendo capaz de fazer surgir um novo gênero musical – o gênero de protesto”(Calazans, 2016).

Justificaram seu povo, sua época e as aflições que nela existiam. Tudo isso sem advento das tecnologias e a extensão que a informação tem nos dias atuais. Isso era 1964. Hoje, 52 anos depois, temos uma velocidade na informação que transpassa o pensar e sua dimensão é imensurável. As situações políticas e sociais não são as mesmas e, consequentemente, com a liberdade política e de expressão, uma paleta de opiniões e pensamentos é tão próxima da existência plena que chega a ser tateável. Com isso, poderíamos dizer que aquela situação de 1964 estaria certamente extinta, ou seja, não haveria espaço jamais para que uma ditadura pudesse impor suas mãos de “chumbo” sobre a opinião alheia e, por conseguinte, influenciar no discurso de quem quer que seja. Pois é, não é bem assim.

Vivemos em nosso país um tremendo estado político-social de preocupação quanto aos inúmeros direitos políticos conquistados a duras lutas e, muitas vezes, banhados a sangue de inocentes. Não quero entrar diretamente no nicho político da questão, até porque esse é bem amplo e complexo. Quero falar do comparativo dos cenários de 1964 e 2016, quanto à representatividade da música e a opinião político-social dos que hoje são os “grandes nomes da música brasileira” e, portanto, fazer um parâmetro do acesso de informações e sua abrangência. Quero falar do artista como uma representação de sua época e seu público.

O ano é 2016 e a visibilidade, seja em qual campo for, é infinitamente maior. Os “15 minutos de fama” nunca se justificaram tanto quanto nos dias atuais. Diariamente surgem inúmeros novos “artistas” e a amplitude do alcance de sua voz (e opinião), é estrondoso. O artista, por si só, é um formador de opiniões, um direcionador social. Sendo assim, entende-se que no cenário político atual muitos dos maiores nomes da música brasileira no momento estariam, com sua popularidade, expressando sua opinião quanto aos atuais acontecimentos, certo?! Não é bem assim. O que existe dessa galerinha é apenas um silêncio quase que ensurdecedor.

Estamos falando de artistas com um enorme público. Aqueles que detêm milhões de seguidores nas redes sociais e que, com isso, teriam suas opiniões alcançadas numa dimensão assombrosa. Afinal, momento mais propício para levar sua fala quanto a sua relação político-social não haveria. Isso só vem a provar que não há engajamento político e social desses artistas. São apenas “business and business”.

É triste enxergar que uma ferramenta tão importante e agregadora como a música brasileira está entregue nas mãos de artistas que tem uma visibilidade enorme, como Ivete Sangalo, Wesley Safadão, Cláudia Leitte, Anitta, mas que, na contramão, nenhum desses faz uso da imagem e alcance que tem para lutar por causas sociais e políticas necessárias. Preferem o “muro” como morada, para não decepcionar nenhum dos lados e não perder parcelas de seu “fiel” público. O campo de batalha não os pertence. Na verdade, não os merece. Não se pede deles uma opinião formada sobre determinado “lado”, mas que expressem de alguma forma o conhecimento do momento, seu povo e o cenário onde atuam. Pede-se que opinem através de suas músicas.

Não é apenas saudosismo, eu juro, mas é inevitável não desejar a presença tão ávida de um Chico, um Caetano, uma Elis, um Gil. E são esses artistas, no seio de um turbilhão de acontecimentos, que estão vindo a público expor suas ideologias e opiniões diversas. São artistas que convergem e comungam de veias sociais e que, diante da conjuntura atual, não se calam e expõem aquilo que pensam (uns mais que os outros). A sociedade precisa se sentir representada na música, pois esse também é um dos inúmeros papéis que esse importante instrumento oferece (não apenas o entretenimento, mas, e principalmente, o cunho político social). Mas tá difícil, viu!

O bom disso tudo é saber que mesmo sem a enorme popularidade “desses artistas” (Ivete, Cláudia, Wesley e outros), temos nomes como Otto, Tico Santa Cruz, Lirinha, Chico César, Thaíde, Criolo, Racionais Mc’s, Mc Carol, Karol Conca, dentre outros, que puxam as correntes das causas sociais e trazem para o debate aberto os temas mais relevantes e necessários do cotidiano. Afinal, Mc Carol já dizia nos versos de Delação Premiada:

“Troca de plantão a bala come é fera
Ontem teve arrego
Rolou baile na favela

Sete da manhã
Muito tiro de meiota
Mataram uma criança indo pra escola…

 …afastamento da polícia é o único resultado
Não existe justiça
Se assassino tá fardado.

Na televisão
A verdade não importa
É negro, favelado, então tava de pistola…”

Essa é a hora. A hora de fazer a revolução também através da música, portanto, play no Spotify e vamos à luta, amigos e amigas…

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Jovem e pensador. Alguém que é sempre de dentro pra fora. Que acredita que a problematização e o senso crítico é ferramenta primordial para mudanças do mundo. Administrador por formação, futuro turismólogo por insistência na graduação. Pai de Heitorzinho, um moleque que encanta e que muda diariamente o rumo da sua vida. Alguém disposto a debater sobre quase tudo nessa vida.

1 Comment

  1. Muito bom o texto, concordo que grande parte dos artistas da atualidade, que alcançam multidões com sua música, pouco tem a contribuir para as futuras gerações com o legado de letras com analogias às vertentes dos cenário sócio-político do momento que estamos vivendo. Infelizmente, a imortalidade da “boa música” brasileira se restringe a poucos artistas atualmente. Só complementando os artistas citados no texto, vale ressaltar que a música reggae, em sua maioria, está sempre nos trazendo críticas aos problemas e realidades atuais.

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