CONSCIÊNCIA COLETIVA

A arte como espaço de afecção e de contestação

em Comportamento/Opinião/Pernambuco/Política por

Uma nota sobre a ocupação do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco

NÃOMEV
ENDONÃ
OSEVEN
DANÃOS
EVENDE

Augusto de Campos

Vende: flexão de dois verbos – vendar e vender – estes que ocupam, no caos operado por parte da mídia e pelo governo, uma atuação forte e quase invisível. A grande mídia venda, o governo – ilegítimo em sua gênese – vende. A quem não queira estar ao lado de um e do outro e toma o (não) verso concreto como uma força imperativa: não se vende. Não feche os olhos para o momento que passamos, não contribua com a disseminação da narrativa de uma mídia que te manipula, não aceite calado e vendado o desmonte que o governo quer operar na educação e na saúde, nos próximos vinte anos. Não aceite a venda, no duplo opressor, que te querem impor. Negando, no entanto, se afirmam como uma flor que fura o asfalto, o tédio, o nojo, o ódio. Impõem-se, portanto, como uma esperança à conjuntura melancólica e de surpresas cotidianas que servem a setores detentores do grande capital e o usam na compra de todo o poder. Nas ocupações, a história é outra e nos diz que não será aceite, calados e vendados, o desmonte do ensino público de qualidade, tese central – ainda que recalcada – da PEC 55, antes 241.

Contra a fala arcaizante e ignorante da grande mídia, as ocupações trazem uma pauta legítima de um movimento que – ao se movimentar – movimentam e levam o espaço de aprendizagem à ressignificação necessária e contínua. Nossos professores – mestres que nos ensinaram o valor da arte, por exemplo, como tônica de contestação –, agora seguem no aprendizado de remodelar a aula, de lavá-la a espaços públicos, integrativos e de formato circular: contra os enfileiramentos nosso de cada dia. Naturalmente, cada centro ocupado apresenta sua singularidade – nessa bandeira maior, no espaço de luta – e o Centro de Educação, que congrega todas as licenciaturas, mostra sua coerência e articulação ao estar nas vanguardas das ocupações, no campus Recife da UFPE (o Centro Acadêmico de Vitória foi o primeiro espaço ocupado). São os licenciados, professores do por vir, os principais afetados com as propostas de emenda constitucional e com as medidas de reforma do ensino. O governo, antidemocrático em suas colocações, quer mudar o currículo do Ensino Médio por decreto, desconsiderando e ultrajando milhares de profissionais da Educação que, todos os dias, doam tempo e esforço na melhoria e na qualidade de uma educação que ainda nem se universalizou.

 

1
Faixada central do Centro de Artes e Comunicação exibe uma das bandeiras de luta.

Nesse lugar, portanto, de pautas singularizares e de bandeiras que tocam a cada Centro, particularmente, o Centro de Artes e Comunicação se apresenta como um lugar de debate para a compreensão da arte como esfera de contestação e de afecção. Afinal, ao se relegar a arte como opção no Ensino Médio, cria-se para ela um não-lugar, um limbo que só será habitado por aqueles que optarem por estudar as produções que dela emergirem, para uma formação prática, técnica, a serviço de um exame ao fim do Ensino Médio. O poder humanizador da arte, no duplo amatório, é completamente desconsiderado e as aulas terão que ser manipuladas para suprimir conteúdos que formam educandos para além da escola, para a vida. Alunos serão alunos, a escola será um momento concreto que se encerra quando se acaba: não se irá além, para as práticas sociais. Os afetos serão mínimos.

2
No dia 27 de outubro, por volta das 18 horas, o Centro de Arte e Comunicação foi ocupado. Quem pôde presenciar a ocupação, sentiu a força vibrante de um movimento que se fortalece a cada dia que passa.

Não serão, no entanto, no que depender do poder de luta dos ocupantes e construtores de um ato que é político sem ser partidário. Basta passar pelos encontros públicos, promovidos por educandos e professores, para perceber isso: discute-se a fotografia e o seu lugar de formação ilusória – isto a grande mídia sabe fazer bem –, discute-se, ainda, o lugar do professor como mediador do saber literário, do formador de leitores que partirão da leitura literária da página para a leitura do mundo, do poder altamente revolucionário da arte e da consciência perigosa que ela tem para formar sujeitos críticos e que partirão para refletir e movimentar o mundo. O Centro de Artes e Comunicação, corpo cinza que fala em linhas e curvas, é o lugar para se afetar na sensível partilha democrática que a arte traz em si.

3
No sábado, 05/11, o Centro de Artes e Comunicação recebeu o espetáculo “Soledad – A terra é fogo sob nossos pés”, estrelado pela atriz Hilda Torres. O monólogo poético narra a história da vida de Soledad Barret, militante comunista da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que foi assassinada em Pernambuco durante a ditadura militar.

Não é apenas o espaço físico que é ocupado: são ocupados os lugares de fala, as construções discursivas, os desejos de mudança. Uma aula, no sentido dinâmico e construtivo que essa tem, de democracia e de organização. Por todo o lado que se olha, afeta-se; e as concepções de arte política estão plenamente contempladas. Poemas, intervenções, corpos em movimentos afetivos, canções e instalações saem das aulas e dos manuais e inundam imensamente cada espaço de um centro que, não com pouca frequência, torna sectária e isolada as produções artísticas. Atividades artísticas e culturais estão espalhadas por todos os centros, mas o sabor de vê-las amplamente acontecendo no CAC – para quem é aluno e sabe do teor isolado que as atividades artísticas têm em suas áreas – é motivo de comemoração, ainda mais por se saber que a mudança acaba por se iniciar e que as configurações de universidade, de agora para frente, tendem a se modificar.

4
O grupo Guerrilha Cultural levou ao CAC o sarau CACOFONIA.

A CARTA MANIFESTO DA OCUPAÇÃO DO CAC apresenta as suas articulações com o movimento dentro da UFPE e na rede que se espalha pelo Brasil, levantando a bandeira de luta pela educação: “Ocupamos por compreender que a educação pública que sempre esteve em segundo plano, vem sendo ainda mais precarizada. Nos últimos anos, foi alvo de cortes orçamentários drásticos, atingindo desde a educação básica ao ensino superior.” E segue com a bandeira de luta que o Centro levanta, em sua especificidade: Enfatizamos a correlação entre o desmonte da educação pública e o boicote a produção cultural nacional, ambas marginalizadas por um governo submisso aos interesses do mercado financeiro. É nítido o processo de cerceamento na formação e produção crítica, criativa e política, prova disso foi a extinção do Ministério da Cultura (MinC) e a retirada das disciplinas Arte, Filosofia e Sociologia do currículo obrigatório do ensino médio, primeiras medidas antidemocráticas do governo golpista. A SAÍDA ESTÁ NAS RESISTÊNCIAS! São as novas formas de fazer politica, produzir cultura, educar e ser educado, com maior autonomia, participação direta e construção horizontal e coletiva, que garantem as recentes ocupações do MinC, Cine Olinda, Casarão da Várzea, institutos, universidades e escolas secundaristas no Brasil inteiro. […] Ocupamos e seguiremos organizadas contra o desmonte da educação e da produção artística, do país ao nosso Centro. Construímos aqui e agora alternativas emancipatórias de resistência contra a PEC DO FIM DO MUNDO, contra o golpe ao Novo Estatuto e por uma educação pública e popular.

O teor da ocupação parte, como já se observa na carta manifesto, de um ideal de coletividade na sabedoria de uma ação que se compreende que, ao se ocupar um espaço, transforma-o em corpo político, em corpo construído por diversos corpos, por vozes singulares e que fitam uma ruptura com a narrativa massificada pela grande mídia, pelos detentores do poder. Essa busca democrática pelo direito de falar e de lutar, do dizer não à precarização, é constantemente atravessada pela sensibilidade da produção artística e isso fica ainda mais evidente na fala de construtoras e construtores da ocupação que a equipe da revista entrevistou, buscando guiar a fala por dois vieses: a da ocupação, de um modo geral, sua força enquanto movimento de resistência e de mudança; a ocupação do CAC, como um espaço que congrega a experiência artística como lugar de afecção e de contestação.

“De uma forma geral essa “primavera estudantil” tomando o país é uma resposta à queima roupa da nossa juventude. Uma juventude que não quer mais estar apática, que percebeu seu papel como agente político dentro dos processos sociais, que não quer mais aceitar todo tipo de informação, que não quer mais morrer pelas mãos do estado, que não quer mais ser marginalizada, e que percebeu também a importância do desenvolvimento do senso crítico. A luta pela construção da democracia é um processo basilar, e a classe estudantil, com esse movimento de levante, só reafirma a necessidade de uma reorganização da esquerda brasileira para combater retrocessos, e as tentativas autoritárias de extermínio, explícito, da classe popular. Sendo o CAC, um dos espaços da universidade que mais abarca grande parte de suas manifestações artísticas, eu entendo que é muito simbólico, que pela primeira vez ele seja ocupado pelos seus estudantes, nesse contexto político no qual estamos vivendo, já que, somos nós, estudantes e futuros profissionais, as maiores vítimas de todas as retiradas de direitos propostas pelo atual governo. Essa ocupação é muito significativa, é histórica e marca sem dúvidas os alunos que tem essa relação de pertencimento com o centro, ou que a buscam de alguma forma. Quero crer que o CAC nunca mais será o mesmo, ou pelo menos, esperamos que não seja!

Acho que a arte é sempre um grande questionamento em movimento. O tempo inteiro ela nos faz perguntas: quem somos, pra onde vamos, de onde viemos, qual nosso lugar aqui, nossa missão, qual nosso espaço… Então, partindo do princípio que todo o processo de revolução no indivíduo acontece através desse questionamento, a arte está para a luta, assim como a luta está para a arte. A luta é um movimento contínuo de não se conformar, de transformações constantes. E a arte é uma das diversas, manifestações de luta política, a arte é processo, marca um tempo, marca a sociedade, e a arte também é política. A ocupação do CAC tem demonstrado isso no seu próprio caráter. Com a preocupação de não perder o foco na formação política, alinhada as formas de manifestações e resistências, de forma popular, coletiva, aberta. Acredito que nesse momento a importâncias das ocupações, tem sido essa, expandir o movimento de transformação, ultrapassar os muros da universidade, chamar a sociedade para o debate, se incluir, enfim…sinto que com a universidade ocupada é que o seu papel social pode se cumprir na íntegra, e não da forma qual estamos habituados, e engessados.” Poeta, aluna da Licenciatura em Letras – Língua Portuguesa e suas Literaturas – construtora e ocupante do/no CAC.

Acredito que o levante das ocupações na UFPE possui caráter simbólico e político. Nos últimos anos as portas da Universidade Federal têm sido abertas a uma classe antes negada, as ocupações simbolizam os corpos e diversidades que tomaram o ensino superior. Desconstruir o que a grande mídia tenta a todo custo pôr nas mentes incólumes, que as ocupações estão prejudicando o curso do ensino, configura uma ação oportunista, já que essas entidades midiáticas não acompanham as reivindicações diárias das escolas e universidades antes das ocupações. As investidas no ensino critico, por parte do governo ilegítimo, sobretudo na arte, encontra no CAC, Centro de Artes e Comunicação da UFPE, uma retórica clara e objetiva à tentativa de retirar o senso de reflexão política da maioria; são realizadas atividades e intervenções nos dias de ocupação, o direito ao grito se mistura com as diversas expressões artísticas que ensejam um ato vivido, instigante e motivador. É preciso resistir a esse desmonte e levar em consideração que meses de ocupação justifica 20 anos de retrocesso.”Aluno ingressante do curso de Cinema e Audiovisual, construtor e ocupante do/no CAC.

Um dos professores que, junto à articulação estudantil vem construindo atividades abertas na ocupação, também comentou o significado e a força das ocupações, sobretudo a partir do Centro de Artes e Educação:

O Centro de Artes e Comunicação está ocupado. Isso é uma decorrência natural da essência do CAC, uma vez que este é o espaço onde o pensamento crítico e a ação artística se encontram com intensidade. Os corredores sempre estão ocupados por instalações, exposições, saraus, performances, ensaios de música e a simples circulação livre pelo prédio já é um respirar político na contestação e insatisfação com o status quo, visto que os professores e alunos são inquietos e instigam-se constantemente em prol da diversidade de ideias e compreensões várias do contexto contemporâneo.  No CAC se gestam gerações de professores que desde sua formação sabem de sua relevância na transformação efetiva na vida de alunados futuros, sejam de línguas, arte, música, comunicação, etc. A PEC 55, a MP de reforma do ensino e um conjunto grande de medidas propostas pelo governo atual será desastroso para a atividade desses futuros professores em sua prática, visto que serão submetidos à indigência financeira, falta absoluta de verbas para manutenção de escolas, nenhuma pesquisa nas suas áreas, impossibilidade de formação continuada além de mordaças ideológicas e perseguições políticas caso tentem cumprir seu papel social fundamental, o de ensinar o pensamento crítico a seus alunos. A arte, a literatura, as práticas vivenciadas e teorias aprendidas no CAC são essenciais para a sociedade pernambucana e é em prol de tal futuro (e presente) que as ocupações estão acontecendo. Ricardo Postal, Professor de Literatura Brasileira, do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação.

Falas que nos motivam ao desejo de construir, contribuir e desvendar os olhos que, ainda que não percebamos, estão atados em faixas simbólicas e grita isso ao pensarmos e enunciarmos o interesse em eventos alternativos para o cumprimento do semestre, quando não nos damos conta de que são vinte anos em jogo: vinte anos de sucateamento e de venda dos direitos conquistados com muita luta.

5
Da série performática “Cegos” do Desvio Coletivo, 2016. Imagem divulgação. Para conhecer mais, clique aqui

A partir dessas falas, então, podemos voltar ao (não) poema em epígrafe – acusado em seu caráter didático e breve, mas que se torna novo e contundente naquilo que nos alude – para realizar um chamado direto e com o objetivo de fazer crescer essa “primavera” que se inicia na força estudantil e vislumbra ao amplo alcance, ou – ainda – como um recado aos burocratas disfarçados de governo, que insistem na tese da venda e da precarização dos bens públicos, sobretudo saúde e educação: não se vende.

As fotos utilizadas nesta matéria foram retiradas da página da Ocupação, no Facebook, como forma de proteção aos ocupantes que têm histórico de perseguição institucionalizada a partir de fotografias e registros de outras mobilizações (motivo que nos fez suprimir suas identidades, nos depoimentos prestados).

Para ler na íntegra a Carta Manifesto, bem como saber como ajudar a construir a Ocupação, conhecer um pouco mais do movimento e estar por dentro da programação diária, basta acessar o Ocupa UFPE.

Facebook Comments

Mestrando em Teoria da literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, integrante do Núcleo de Estudos em Literatura e Intersemiose – NELI -, pesquisador da atuação Concreta e Pós-Concreta com foco na obra de Augusto de Campos. Leitor de poesia.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Último post de Comportamento

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas