CONSCIÊNCIA COLETIVA

The Crown: de Lilibeth à Rainha Elizabeth II, os desafios de ser uma jovem, uma mulher e uma líder.

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A série, lançada pela Netflix no começo deste mês, conta, até o presente momento, com 10 episódios que narram os primeiros anos do reinado da rainha Elizabeth II. Durante este período, além de mostrar uma belíssima produção que inclui cenários e figurinos impecáveis, a série conduz o expectador a observar algumas problematizações que se desenlaçam a partir dos dramas que envolvem a coroação de Lilibeth, e estas são bastante contemporâneas a nós.

No decorrer dos episódios, e não precisa assistir os 10 pra ter um pouco de noção disto, vemos uma sucessora ao trono que tem sua competência e habilidades constantemente questionadas e postas a prova por se tratar de uma jovem e uma mulher. Lilibeth, que é assim chamada até o momento da sua coroação, é vista como uma jovem fraca, sem personalidade e, consequentemente, manipulável. Rótulos que são usados para jovens até os dias de hoje, cerca de mais de 60 anos depois da coroação de Elizabeth II.

A maior qualidade de Elizabeth, de acordo com a maioria dos que a cercam, inclusive sua própria mãe, é saber o momento certo de se calar. Ou seja, a jovem Lilibeth tem por obrigação maior manter-se calada e deixar que outros falem por ela. Nos soa um pouco familiar, não? Sim, basta observarmos nosso momento político atual que começou com o crítico impeachment da Presidenta democraticamente eleita e segue com a luta de jovens que ocupam escolas e universidades em busca da manutenção dos seus direitos, mas recebem rótulos como doutrinados, vagabundos, incapazes e outros tantos adjetivos depreciativos.

A série ainda nos conduz a pensar sobre a ideia do que é feminino para os homens e o que eles pensam ser adequado para mulheres. Elizabeth é cercada por homens mais velhos que determinam como ela deve agir, o que é adequado para sua imagem de esposa, mãe, filha, irmã, rainha. E isto se estende a sua irmã Margaret e os relacionamentos e posturas adotadas por ela. A internalização do discurso masculino a respeito do ideal feminino é tão internalizada por Elizabeth que esta passa a cobrar “adequação” à sua irmã.

Margaret, por sua vez, chega a ser uma das personagens mais controversas por representar a possibilidade de ruptura desta ideia masculina de feminino ao longo da série. Não que isto garanta um “final feliz” a ela, mas fomenta bastante as polêmicas na casa de Windsor. Romances, individualidades e quebra do conservadorismo estão sempre presentes por meio da princesa Margaret, do seu tio, que abdicou da coroa e aceitou o exílio para poder casar-se com uma plebeia, e do príncipe Philip, marido de Elizabeth, que desempenha uma função “decorativa” e que o faz questionar constantemente seu papel de “macho” da relação. Ele deixa bem claro que não é fácil viver a sombra da esposa rainha abrindo mão do nome, das suas funções sociais de “homem da família” entre outras coisas.

Por último e não menos importante, e igualmente atual, vemos um Reino Unido imperialista, colonizador, aculturando os países colonizados. Difícil pensar sobre isto nos nossos tempos? Talvez não. Este recorte pode facilmente nos remeter (novamente) a nossa situação política atual na qual vemos com facilidade as camadas populares sendo dominadas pelo discurso das classes ricas e reproduzindo estes discursos como seus. E nem precisa ir tão longe, basta voltarmos às ocupações e vermos alunos, que serão igualmente prejudicados pela PEC 55, se colocando contra alunos ocupantes.

The Crown é uma produção que poderia ser apenas sobre a coroação e trajetória da rainha Elizabeth II, mas parece ser muito sobre nós mulheres de hoje, nós jovens de hoje, nós brasileiros de hoje.

Luíza é graduada em Letras pela UFPE, estudante de Direito na UNINASSAU. Escreve sobre a vida cotidiana e as relações interpessoais, e de vez em quando sobre cinema. É curiosa e adora observar as pessoas, seus discursos e suas práticas. Publica mensalmente no dia 12, save the date | Para segui-la no Instagram: @madluiza

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