CONSCIÊNCIA COLETIVA

Foi bom pra você?

em Autoral/Comportamento/Crônicas por

Quem nunca, após uma transa, ouviu a derradeira frase? “E aí, foi bom pra você?” Quem nunca ouviu, muito provavelmente, jamais teve o dissabor de uma noite (uma tarde, uma manhã…) de sexo meia-boca, anti-prazeroso, en passant. Broxante. Para ser mais preciso. Aquele em que o beijo parece não funcionar, o toque não é mesmo, as peles produzem atrito, os movimentos são mecânicos e o gozo parece tão distante quanto você do seu parceiro.

É o famoso fast-foda, ligeirinho, chegou, comeu: gozou (e nem precisa pagar).

Nesses casos, o “foi bom pra você” funciona como uma espécie de pergunta-desculpa, cuja resposta, óbvia, não responde ao que foi que solicitado, mas antes, devolve, entre sorrisinhos e constrangimentos, a falsa cordialidade do interessado. Mesmo porque ele já espera a resposta: “Sim, foi bom”. Ele sabe que não foi bom. Ele sabe que você sabe que não foi bom.

Você até poderia ensaiar uma respostinha melhor, “uma das melhores fodas da minha vida!”, “que tesão”. Mas sua feição, plácida, lhe trairia, denunciando o seu total desconforto.

Certamente, vocês nunca mais se encontrarão. Ele não mais fará a perguntinha constrangedora, nem você terá de fingir uma resposta para agradá-lo. Mas a transa meia-boca já aconteceu, não há como apagá-la ou fazer vista grossa através de uma mentirinha para agradar terceiros.

“Ah… O sexo não foi tão bom assim.”

Quem sabe se você tivesse dado outra resposta, aquela que contrariasse a pergunta retórica, o desfecho seria outro? Quem sabe você tivesse respondido: “não, não foi bom” e ele (ou ela) se pegasse desprevenido tentando forjar, ali, uma tréplica? Por que não foi bom? Por que nosso beijo não funcionou? Por que nossas peles não passearam nuas umas sobre as outras?

O “ah, não foi bom” poderia acabar em boas risadas. Poderia ser a deixa para uma segunda transa. Poderia até encerrar em silêncio. Daqueles que você nem o outro sabem o que falar, embora esse vazio convide à pausa, ao respiro, à quebra do frenético, das perguntas que anteveem respostas.

Talvez você o/a beije novamente, solicite mais algumas horas do aluguel do quarto e se permita, como Rita Lee cantou, “ao prazer de ter prazer comigo”.

O “ah, não foi bom” é o anti-fast-foda, é um convite ao inusitado, à resposta que contraria a pergunta. Um convite à demora, à resolução de outras perguntas, a perguntas que necessariamente não têm respostas, mas ousam à segunda vez, à próxima transa, ao próximo e incontrolável gozo… Daqueles capazes te “deixar de quatro no ato” (pegando carona em Rita, de novo) e dispensam qualquer tipo de
pergunta-desculpa
pergunta-retórica
pergunta-piada
pergunta-mea-culpa:
foi bom pra você.

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