CONSCIÊNCIA COLETIVA

Dica de Leitura : O Muro (Fraipont e Bailly)

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Existe algo de muito positivo nas Graphic Novels mais recentes. Diferentemente da maioria dos quadrinhos que temos a disposição, esse tipo de livro se faz especial principalmente por permitir que a nossa capacidade de subjetivar o mudo não seja subjugada. O trabalho escrito por Céline Fraipont, desenhado por Pierre Bailly e traduzido aqui pelo Fernando Scheibe, já foi resenhado por inúmeros sites, mas pouco deles falam especificamente da força simbólica que tem essa narrativa e é exatamente sobre isso que penso em escrever.

Uma breve sinopse: Rosie, com seus 13 anos, filha de pais separados, vê a sua mãe embarcar em uma nova aventura amorosa. Com a ajuda de alguns amigos, um em especial, ela vai aos poucos entendendo a dinâmica da vida, se percebendo dentro de uma realidade que a cada dia fica mais complexa e melancólica.

No primeiro momento, somos apresentados a sua amiga Nath e aos dilemas vividos por ambas. Não falta sarcasmo nos diálogos das duas, um retrato fiel sobre a riqueza da adolescência. Em poucas páginas, somos levados a pensar sobre isolamento e refletir sobre os canais de fuga que criamos para driblar qualquer rotina que nos empurre para algum abismo desconhecido. O destaque (cômico) desse primeiro ato, fica por conta do jantar na casa da Sra Pollet, a mãe de Nath. É um momento tão rico em representações, que daria para fazer um estudo completo sobre as relações familiares e os seus impactos nas diferentes gerações.

Em seguida, poeticamente somos levados para algumas lembranças de Rosie, assistimos como foi primeiro encontro das duas amigas, um retorno repleto de nostalgia e sensibilidade. É exatamente nesse momento que, pela primeira vez, “O Muro” se faz presente. Ali, sentadas, as duas se abraçam e acabam caindo do outro lado do concreto, nitidamente uma representação simbólica da vida em andamento e dos futuros desequilíbrios.

Existe, entre outros pontos, algo de muito positivo no texto da Céline; ela não infantiliza as suas personagens. A realidade em que a dupla está imersa, não apenas condiciona os seus comportamentos, como é alterada por eles. As meninas bebem e fumam, sem que isso soe como algo demasiadamente proibido, não existem condenações fáceis, até porque toda condenação é uma limitação pobre para qualquer problema. 

Não é fácil falar sobre angústias e medos, por isso que o trabalho do Pierre faz tanto sentido e muita diferença. Ele consegue criar enquadramentos repletos de nuances, contrastando o preto e o branco com a total intenção de atingir as nossas sensações imagéticas mais profundas. Quando Nath é proibida de sair com Rosie, por exemplo, uma decisão tomada verticalmente pelos seus pais, o muro, através dos enquadramentos do desenhista, rapidamente se mostra a disposição.  Ali parado entre as árvores, ele parece bastante convidativo.

Logo em seguida vamos acompanhado a rotina de Rosie, no que eu chamo de processo de fantasmagorização. Dividimos com ela alguns dos seus afogamentos, acompanhamos a vida criando novos muros, até mesmo entre as antigas relações de amizade, e aos poucos começamos a perceber que algumas das piores prisões são erguidas por nós mesmos.

Claro, o muro não é só um lugar de sustentação, é também um lugar de descoberta. É nele, por exemplo, que conhecemos Jô, o menino que, ao contrário do que imaginávamos, não se apresenta como uma simples solução. Claro que a sua presença nos leva a perceber como a vida também coloca à disposição novos caminhos, para que as barreiras e as distâncias sensoriais sejam ultrapassadas. A música, a arte, colaboram de alguma forma, mas é bonito perceber que a autora não escolheu uma via fácil. Rosie vai se modificando, alterando sua visão de mundo, não apenas porque um garoto apareceu, mas sim porque sozinha, consegue pensar sobre si mesma e sobre as suas limitações. Quando (mesmo assim) precisa de ajuda e de afago, entra em cena a maravilhosa Jeanne, a cabeleireira que com poucas palavras vai fazer algo muito raro: oferecer ajuda sem permanecer didática e categoricamente adulta diante da realidade de uma adolescente. Jeanne é de longe a minha personagem preferida, penso que ela merece um texto só dela, um especial.

Na medida em que vamos ficando mais próximos da protagonista, vivendo imageticamente a sua rotina, conhecendo seus novos amigos, seu novo visual e as novas dúvidas trazidas pela presença de Jô, percebemos que essa história é um pouco da história de cada um de nós, ela evoca situações e questionamentos muito importantes e nunca resolvidos pelo adolescente que ainda mora em nós.

O final, bem, não existe um final, o que existe é uma pequena passagem, um olhar por cima do muro. Esse é um trabalho que fala sobre companheirismo e fidelidade com muita propriedade, que cria raízes duradouras no nosso imaginário e que nos mostra que crescer é mais do que olhar para frente, é perceber que por trás do muro pode morar o inesperado.  Boa Leitura.

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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