CONSCIÊNCIA COLETIVA

Review: Black Mirror S03E06

em Séries/TV e Séries por

Review

Nota de Djalma
8.5/10
Média
8.5/10

O ódio gratuito na internet é um motivo de preocupação grande para diversas pessoas – como lidar com haters que, muitas vezes, nem têm identidade? A nossa geração – aquela que hoje tem 30, 35 anos -vivenciou o momento do surgimento desse processo, onde as pessoas começavam a tecer comentários baseados em suas opiniões (teoricamente) pessoais sobre outras pessoas dentro de uma rede interligada de computadores. Com o passar do tempo, vemos isso acontecer cada vez mais, principalmente através de ferramentas como o Twitter – agora, é possível falar COM x odiadx diretamente, e enviar quaisquer ameaças que desejar, inclusive de morte. Parece realmente muito fácil odiar hoje em dia: é apenas necessário ter um computador ou smartphone, uma conta em alguma rede social, e uma opinião contrária a de outrem; pronto, sua opinião estará lá para todxs verem, e influenciar a quem se interessar por ela.

No entanto, apesar de termos visto o surgimento dessa nova maneira de odiar, não sabemos como lidar com ela. A cada vez que, possivelmente, consegue-se uma maneira de apaziguar os ânimos, logo em seguida uma outra forma de acender o ódio surge, e o ciclo se reinicia.  E assim tem sido os últimos 20 anos dentro da World wide web, e o sexto episódio da terceira temporada de Black Mirror (Odiados pela nação) tenta trazer à tona as consequências  da falta de tato que temos com essa temática.

A história se inicia com a investigação do assassinato de uma jornalista que havia publicado uma coluna crítica ao suicídio de um ativista paraplégico – a policial Karin Parke (Kelly Macdonald, numa performance um tanto caricata) vai até a cena do crime, juntamente com a novata Blue (Faye Marsay, excelente), para angariar provas de quem seria x assassinx – sem sucesso. Logo depois, após falar mal de um garoto que o amava na TV, um rapper é também morto, e acaba indo ao hospital; lá, é achada dentro do seu cérebro uma abelha artificial – criada pelos mestres da robótica para continuar polinizando flores e nada mais, uma vez que nenhuma abelha natural sobreviveu ao aquecimento global.

A partir daí, uma investigação toma conta do episódio – descobre-se que uma determinada hashtag colocada no Twitter (#DeathTo – ou #AMortePara) é a principal responsável por estes ataques das abelhas. Elas são programadas através do número de hashtags sendo utilizadas para cada pessoa por dia, e às 17h a pessoa com mais menções junto a essa hashtag será alvejada e morta.

Sabendo disso, as detetives conseguem descobrir quem será a vitima do dia seguinte, e, apesar de tentar protege-la, elas não conseguem salvá-la. A partir daí, a jornada em torno de quem está por trás disso tudo toma proporções gigantescas, e elas finalmente conseguem achar o culpado: Garrett Scholes, que tinha a intenção de realmente ser descoberto. A partir do momento que a identidade do culpado foi descoberta, e também a maneira como conseguir fazer parar a programação das abelhas em relação à hashtag, uma outra programação comanda as abelhas a matar todas as pessoas que enviaram as ameaças de morte através da hashtag, causando uma diminuição devastadora da quantidade de pessoas no país.

O início e o final do episódio se dão num julgamento, onde Karin conta sua versão da história, e diz que sua assistente Blue desistiu da vida na polícia por não ter conseguido salvar as pessoas; isso, no entanto, é apenas um disfarce para que Blue possa achar Garrett e ir atrás dele, e é assim que se fecha a sexta temporada da série produzida pelo Netflix.

De forma geral, o episódio é bem construído, e tem uma narrativa que prende a atenção, principalmente pelo seu clima de suspense e engenhosidade relacionada à tecnologia que temos hoje em dia e também a que teremos num futuro (infelizmente) próximo. No entanto, a equipe de efeitos especiais deixa um pouco a desejar, em momentos quando por exemplo em uma determinada cena, um enxame de abelhas ataca uma casa; o que se percebe é uma similaridade impressionante com filmes de terror classe B, que apesar de divertidos, não teriam a qualidade que Black Mirror merece (mancada né, Netflix?).

Apesar disso, a temática do episódio é brilhante, porque traz à tona muitos questionamentos sobre a convivência dentro das redes sociais hoje em dia. Tendemos a colocar opiniões agressivas contra outras pessoas, e muitas vezes esquecemos que essas pessoas também têm sentimentos. A primeira pessoa que foi protegida pelas detetives, uma menina de pouco mais de 20 anos, foi encontrada em sua casa aos prantos ao ver as ameaças de morte e frases de ódio sobre sua pessoa espalhadas pelas redes sociais, por causa de uma foto com uma pose infeliz em frente a um monumento.

É importante falar sobre isso, uma vez que existem dois caminhos a serem seguidos e observados: não é uma boa ideia expor tudo aquilo que se faz a pessoas que não fazem ideia de quem você é – e muitxs o fazem por uma fama momentânea. No entanto, também não se deve ameaçar de morte alguém pelo simples fato de ter se sentido mal por algo que aquela pessoa fez. Acredito que o último episódio da série (assim como a série como um todo) nos chama atenção para muito além da tecnologia; para a forma como nos relacionamos uns com os outros.

Como falado anteriormente, ainda não sabemos como lidar com toda essa tecnologia, e portanto nossos filhos também não sabem; precisamos, talvez, reaprender a nos conectar socialmente sem o auxílio tecnológico para que, finalmente, possamos adaptar esta tecnologia a esta conexão social que nos faz, como um todo, uma sociedade que almeja prosperar, e não cair em ruínas. Infelizmente, temos um caminho muito longo pela frente; talvez até nem tenhamos entrado nele ainda.

Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears - hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

  • Otaviano

    Essa é a melhor série do ano? sim ou ctz?

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