CONSCIÊNCIA COLETIVA

Incrítica Live : Ney Matogrosso – Atento aos Sinais

em Homenagem/Música por

Review

Nota de Igor
10/10
Média
10.0/10

Na mais nova série do nosso blog, farei críticas sobre shows que assisti, seja ao vivo, ou através de mídias ou meios digitais, com foco maior em Mpb e Música Nacional. Mas deixo de lado as pretensões, afinal não sou um especialista em música, mas de fato, um mero entusiasta, e “rebaixo” minha “crítica” através do prefixo de negação IN. Sim, o foco aqui é não ter objetivo de estruturar uma resenha de forma estritamente técnica, mas o de mostrar o ponto de vista de um leigo, porém amante da música em suas mais variadas formas. Gente como você, que assiste a um show ou pretende assistir e quer ler algo com uma linguagem mais objetiva e simples, beirando o coloquial, como se estivesse ouvindo uma opinião de um amigo… é essa a proposta! E porque não começar com um dos artistas mais célebres e consagrados do cenário da dita “música popular brasileira”, o maravilhoso Ney Matogrosso?

Sim, analisarei o estupendo show Atento aos Sinais, onde o artista, surpreendentemente, expõe uma vitalidade incrível do alto dos seus 74 anos, o que não é novidade em se tratando de Ney: ele é atemporal, uma figura cristalizada no tempo e no espaço, porém sem perder sua dinamicidade e sempre se propondo a experimentar novas formas de apresentar arte. Atento aos Sinais é impactante, sendo impossível ficar indiferente ao assisti-lo, pois se apresenta através de uma série de características que formam um amálgama coeso e que lhe dá vida própria: forte, intenso, sensual, político, utópico e também crítico. O show se inicia com a figura imponente e mística do artista sentando em uma espécie de “trono” multicolorido. Através da letra política “ todo mundo tem direito à vida, todo mundo tem direito igual” Ney mostra que manda e dita as regras no palco, o que não poderia ser diferente: a performance é eletrizante, onde vemos um artista completamente entregue e transbordando toda a energia que a música exige.

O tom político se torna mais agressivo com a canção “Incêndio”, quando o palco é banhado por uma intensa luz avermelhada e que podemos até mesmo fazer um paralelo com as manifestações que tomaram conta do país desde a época em que o show foi concebido (em 2013). A rebeldia continua com a interpretação de Ney para “Vida Louca Vida” que soa aqui como uma justificativa e resposta à música anterior, de aparente revolta contra o sistema político-econômico. Logo após somos agraciados com um momento bastante provocativo, pois o cantor anuncia: “vou ali, trocar uma roupinha” e apresenta todo seu sex-appeal em uma breve troca de acessórios. Uma das maiores características de Ney é a sua sensualidade: ele inspira desejo e lascívia e, consciente disso, brinca com o público o tempo todo. Em um dado momento, muda seu figurino, trocando-o lentamente no palco, de forma lenta e provocativa, o que gerou, no mínimo alguns gritos enlouquecidos ( até eu gritei, confesso).

Interpreta também “Roendo as Unhas”, logo seguida por “Noite Torta”, que tem um tom, embora pretensiosamente “depressivo”, sensual. “A ilusão da Casa” cumpre o papel de “música triste” , e a interpretação de Ney é magnífica, pois podemos visualizar cada detalhe da letra e o sentimento de solidão e tristeza que permeiam a canção. “Two Naira Fifty Kobo” marca uma volta ao tom político do show. Com iluminação verde e imagens de indígenas, Ney nos inspira nacionalismo e nos convida a assistir às projeções no telão. “Freguês da Meia Noite” nos leva pra boemia paulista, um clima burlesco e erótico toma conta do palco, com a projeção da palavra LOVE, nos telões. “Isso não vai ficar assim” mostra a versatilidade do artista ao interpretar um reggae; arrisca também uma espécie de “hip hop” em “ Pronome”.

Em “Fico Louco” o artista  interage com o público, fato que também ocorre em outros momentos do espetáculo. Ele rasteja, provoca e o público vai ao delírio. Algumas pessoas chegam perto dele nesses momentos e é incrível ver a devoção e o amor que possuem por ele. “Tupi Fusão” nos mostra um jogo de palavras divertido, apontando um lado mais “cômico” do show, logo seguida por “Samba do Blackberry”, que faz uma crítica divertida a sociedade tecnológica que vivemos ( Melhor momento do Show). Após um bis com músicas como “ Todo mundo o tempo todo” e a clássica “Amor”, e logo após a banda é inteligentemente apresentada através das projeções no telão, quando Ney volta e canta a clássica “Poema” música que Cazuza escreveu para sua avó, e nesse momento, o publico todo está intimamente conectado e canta junto de forma magistral.

Não apenas a figura do grande artista que Ney é, mas também toda a parte técnica do espetáculo é impecável: a iluminação fluida, completamente conectada com as canções dá a tônica à  parte visual do show, que conta com o uso de quatro telas que apresentam imagens cuidadosamente inseridas em cada canção do espetáculo. E isso é um ponto importantíssimo: tais telas não são usadas aleatoriamente, e não desviam, em momento algum, a atenção do público para elas em detrimento do artista. Ponto para a maravilhosa direção de arte, que inseriu todos os elementos de forma orgânica e contribuiu para o tom mais “agressivo” e com cunho político-social do espetáculo.

Ney, neste show, não exalta de forma alguma sua figura como artista. Canções clássicas foram deixadas de fora, como: “Homem com H”, “Tanto Amar”, “ O Vira” e “Sangue Latino”, mas o objetivo aqui não é expor a carreira de Ney Matogrosso, mas o de apresentar um espetáculo artístico com uma temática visceral e política. Embora o público, em sua maioria, procure o espetáculo para assistir o showman Ney Matogrosso, ele é apenas uma figura do todo que é o Show Atento aos Sinais. Milhares de pontos para o artista, que trabalha em prol de sua arte, se propondo a ser um dos elementos de um trabalho artístico, e não a própria razão de existência do espetáculo. Claro que senti falta das músicas clássicas, mas quer saber; Ney apresenta de forma estupenda qualquer coisa que se propõe em fazer. Ele vive em prol da arte, e a ama e respeita de forma tão intensa que, mesmo diante de tantos admiradores e anos de carreira, não se deixa levar pelo estrelismo e atua de forma completamente entregue e conectada com o tom político do show.

Bom, essa é a minha pequena crítica ao espetáculo. Sugestões? Críticas? Por favor, comente! Sua participação é muito bem-vinda! Espero que tenha estimulado vocês a irem pesquisar mais desse artista maravilhoso que é o Ney Matogrosso!

 

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