CONSCIÊNCIA COLETIVA

Review: Black Mirror S03E05

em Séries/TV e Séries por

Review

Nota de Raphael
8/10
Média
8.0/10

O texto a seguir contém spoilers

Apesar de concordar com parte da crítica que avaliou negativamente a forma como esse episódio foi estruturado, confesso que gostei da forma como a temática que ele se propõe a discutir foi abordada. O fato de terem usado o regime militar como pano de fundo, não anula o caráter universal da crítica que está colocada.

Nesse capítulo conhecemos Stripe (Malachi Kirby), um soldado que vive em uma base onde equipes são treinadas para combater o que eles chamam de “ baratas”, ou seja, humanos que foram contaminados (as) com uma espécie de vírus e que precisam ser exterminados (as). As coisas começam a mudar quando em sua primeira ação, Stripe, após matar duas baratas, manuseia um objeto que projeta uma espécie de laser nos seus olhos. Essa “luz” danifica parcialmente a “máscara” que ele usa, um recurso que permite com que todos os soldados (as) possam enxergar melhor os seus alvos, que possam compartilhar informações…

É nesse momento que o roteiro escorrega e passa a soar bastante previsível. Os eventos vão sendo interligados sem muita criatividade; até o fator surpresa, a revelação final, perde o impacto que poderia ter. É um erro de execução que, como eu já disse, não diminui a grandeza da discussão, falar sobre manipulação nesse nível nunca é demais.

O que esse episódio consegue fazer bem, além de criar excelentes momentos de tensão e usar o recurso dos “zumbis” na medida certa, é nos colocar no papel de opressores em potencial. Pensar que somos capazes de aderir aos discursos que pregam violência, que muitas vezes estamos, de diferentes formas, vestindo uma máscara que foi projetada pelo outro (com intencionalidade), é algo assustador e bastante atual. Não preciso citar quantas vezes esse tipo de enredo esteve presenta na nossa história.

Vestir a máscara significa, para Stripe, automatizar as ações. É curioso perceber que o sonho é o recurso utilizado para simbolizar as recompensas, nele está presente o mundo ideal, a justificativa para os atos impensados. Quando percebe que faz parte de um programa de extermínio, o soldado mobiliza todas as suas forças, tenta romper com sistema, mas rapidamente é colocado diante da maior contradição: está ali por vontade própria.  Nesse momento a sutiliza do roteiro escrito pelo Charlie Brooker entra em ação, nos revelando que apesar dessa decisão, Stripe talvez não estivesse ciente completamente dos métodos, ou não deu a atenção devida ao que estava sendo proposto.

A cena final nos mostra o seu retorno ao mundo dos sonhos, nos fazendo questionar até que ponto fantasia e a realidade estão misturadas e se elas podem condicionar, quando manipuladas, todas as nossas ações. Apesar de ter colocado esse EP como o mais fraco em comparação aos outros 5, eu reforço que ele nem de longe é irrelevante, muito pelo contrário. Destaque para a atuação do Malachi, da sensacional Madeline Brewer, e para a presença, sempre perturbadora, do talentoso Michael Kelly (Arquette), que trabalhou com o diretor desse episódio, Jakob Verbruggen, em House Of Cards e que faz um tipo de psicólogo bem desgraçado mesmo. Por falar em desgraçado, é assim que me sinto quando termino qualquer episódio dessa série. Até a próxima temporada, o EP06 será todo de Djalma.

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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