CONSCIÊNCIA COLETIVA

Review: Black Mirror S03E04

em Séries/TV e Séries por

Review

Nota de Djalma
10/10
Média
10.0/10

Esse texto contém Spoilers

O conceito de eternidade sempre fugiu ao meu entendimento; muitas pessoas com quem eu convivia quando mais jovem, principalmente cristãos, falavam de eternidade como se fosse um refúgio, longe de todas as coisas ruins que nos acontecem diariamente – um paraíso, por assim dizer. Pra mim ainda hoje é bastante complicado pensar através dessa perspectiva, visto que não há medida para a eternidade. Ainda que seja tudo ótimo, é tempo demais, não? E será mesmo que não acontecem coisas ruins lá? Como pode?

Levando tudo isso em consideração, o quarto episódio da terceira temporada de Black Mirror, intitulado “San Junipero”, me deixou com mais uma pulga atrás da orelha, porque trata da eternidade como um conceito estritamente virtual – seja na mente do indivíduo ou numa drive onde as “memórias” da pessoa estarão instaladas, fazendo-a “viver para sempre”. A história começa se passando numa cidade homônima ao episódio, na década de 80 – e, pra ser bem sincero, no início do episódio fiquei me perguntando onde entraria a faceta tecnológica avançada que sempre vemos na série. Yorkie (Mckenzie Davis, muito boa) visita pela primeira vez a cidadela, e entra numa espécie de boate onde existem vários tipos de diversão: jogos eletrônicos, música, drinks, e muitas pessoas diferentes. Todos estão vestidos a caráter (estilo anos 80), menos ela; ela não se prende muito aos estilos da época, e acaba se apaixonando por Kelly (Gugu Mbatha-raw, excelente como sempre), uma garota super descolada que, è primeira vista, não tem amarras em relação a nada. Ao receber uma cantada dela, Yorkie inicialmente prefere fugir – acha que é muito diferente do que aquela garota representa.

Mckenzie Davis, como Yorkie

Ao longo do episódio, dicas são dadas aqui e ali sobre o que se trata San Junipero, e sobre o que acontece ali, mas nada tão explícito até que o “mundo real” (final do século XXI) chegue à nossa tela: a cidadezinha é, na realidade, um “paraíso” onde pessoas idosas (re-)vivem sua juventude – mas elas têm um dia de cada vez. Ao soar da meia-noite, elas vivem aquele mesmo dia, só que de maneiras diferentes, se quiserem; assim, elas podem escolher para qual ano querem ir, e isso é perceptível através dos jogos, das músicas e dos estilos de roupas que eles podem escolher (uma sacada clichê, mas que funciona razoavelmente bem no episódio). Neste paraíso, temos pessoas vivas (doentes e/ou idosas), mas também pessoas mortas, que pagaram para viver eternamente nesse local.

Yorkie e Kelly

No mundo real, Yorkie é uma mulher com paralisia total há 40 anos – aos 21, sofreu um acidente de carro ao fugir de casa após ter assumido sua homossexualidade para família; Kelly, por sua vez, foi casada durante 40 anos com um homem, teve uma filha que morreu aos 39, e está prestes a falecer de câncer de pulmão. Enquanto a primeira tenta viver virtualmente uma vida que não conseguiu no mundo real, a segunda apenas quer se divertir enquanto a morte não vem – ela não planeja continuar em San Junipero depois de falecer. Por isso, ela não quer estar ligada a ninguém.

Yorkie está prestes a casar, na vida real, com Greg – um enfermeiro do hospital onde vive internada -, que possibilitará a sua eutanásia, uma vez que sua família, muito conservadora, não deixa que isso aconteça. Então, ao passar duas noites com ela, Kelly se oferece a fazê-lo, e vai ao hospital onde Yorkie se encontra para casar-se com ela na vida real. A diferença é que, apesar disso, Kelly não quer continuar em San Junipero após sua morte – ela quer respeitar seu marido, que também não continuou, por não crer que houvesse motivos para acreditar em eternidade.

O entrave leva as personagens e os telespectadores a se perguntarem exatamente todo aquele questionamento do início desse texto; indo mais além, mais uma pergunta: ainda que exista amor, será ele o suficiente para a eternidade? Bem, o roteirista Charlie Brooker prefere nos deixar uma mensagem de otimismo, e diz que sim. A eternidade é o lugar perfeito para duas imagens holográficas e mais jovens de duas mulheres viverem juntas, numa cidadela litorânea, aproveitando todas as décadas das quais fizeram (ou gostariam de ter feito) parte. Mas, como sabemos, Black Mirror não deixa tudo tão lindo quanto um conto de fadas: a cena final, com os créditos, mostra as imagens de Yorkie e Kelly felizes em San Junipero, e ao mesmo tempo as máquinas que lidam com as suas realidades virtuais – e são apenas isso, virtuais, memórias de tempos remotos, ajustadas e mantidas através do uso de robôs. Estas imagens têm, como trilha sonora, a música “Heaven Is a Place On Earth”, da Berlinda Carslile, um sucesso do ano de 1987.

Então, a pergunta que ficou foi: será que não podemos nós mesmos fazer da nossa própria vida uma eternidade no paraíso? Ora, se tudo está no virtual, é muito possível fazer com que ele seja perfeito, ainda que apenas dentro das nossas mentes. E é com essa nota de esperança – ainda que em tempos difíceis como os que estamos passando – que Black Mirror termina o que foi, para mim, seu episódio mais bem construído e melhor elaborado de toda a série.

Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears - hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

Último post de Séries

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas