CONSCIÊNCIA COLETIVA

Review: Black Mirror S03E02

em Séries/TV e Séries por

Review

Nota de Djalma
8.5/10
Média
8.5/10

A ânsia pela fuga tem sido o catalisador mais potente para o uso da tecnologia dentro da nossa sociedade. No mundo virtual, tentamos fugir de inúmeros problemas e traumas que nos acompanham, e que parecem simplesmente desaparecer no primeiro clique ou quando recebemos um “curtir” na nossa foto. Desde sua primeira temporada, Black Mirror tem falado bastante sobre as consequências advindas dessa fuga dentro da nossa sociedade, mas não lembro de ter visto nenhum episódio sobre a fuga em si, e é exatamente nesse espaço que Playtest entra – o único problema é que todas as informações colocadas no episódio acabam sendo explícitas demais, resultando numa redução do clímax necessário para o tipo de episódio que pretende ser.

O episódio começa com Cooper (Wyatt Russell) fugindo de casa no início de uma manhã, sem aparentemente avisar a ninguém – nem à própria mãe, que tenta em vão alcança-lo no celular. Assim, ele embarca em uma viagem repleta de aventuras e momentos excitantes por vários continentes, até chegar à última parada, Londres. Lá, ele conhece Sonja (Hannah John Kamen) através de um aplicativo de namoro, que lhe dá a triste notícia de que na cidade não há nada relacionado a aventuras. Cooper então decide voltar para casa e enfrentar aquilo de que estava fugindo: sua família. Seu pai – a quem considerava seu melhor amigo – havia morrido recentemente de Alzheimer (doença congênita), e ele nunca teve muito contato com sua mãe (por isso, ignora várias ligações).  Mas então, acontece um problema com sua conta bancária e ele não tem dinheiro suficiente para comprar a passagem de volta. Decide portanto pensar em uma maneira de arranjar dinheiro através de um job encontrado num outro aplicativo: o teste de videogame de uma empresa bastante reconhecida na área.

Cooper e o kit que proporcionará a entrada no teste

Desde o início do episódio é possível perceber a importância da tecnologia na vida de Cooper: ele usa seu celular para basicamente todas as ações que realiza durante suas viagens: jogos, fotos, mensagens, aplicativos, etc. Sonja, ao saber o que Cooper irá fazer, pede que ele tire uma foto (pois assim ele ganharia ainda mais dinheiro); ele tira a foto, mas esquece de desliga-lo – o que acaba causando sua derrota.

Dentro da empresa, localizada em um prédio afastado e de certa forma sombrio, o teste que ele deve fazer é para um videogame de realidade aumentada – por isso, colocam nele um implante que fará seu cérebro “comandar” o jogo. Esse teste, incialmente num jogo bastante banal, acaba sendo um jogo de terror (sem nenhum roteiro específico) onde o jogador deve enfrentar seus maiores medos numa casa vazia.  A frase que ressoa durante toda essa parte do episódio é a de que essas imagens não poderão fazer-lhe nenhum mal real – mas estamos falando de um jogo controlado pelo cérebro. O que começa como banal, com a presença de aranhas e do valentão da escola (ou de ambos juntos), acaba chegando a níveis de subconsciente que fazem Cooper literalmente tremer, como o medo de ter sido enganado por Sonja, ou até mesmo de acabar sofrendo igual ao seu pai, sem lembrar de si mesmo.

Mas o maior medo de Cooper acaba sendo exatamente aquele que o mata: sua mãe. Dentro do jogo, Cooper se vê voltando para casa, onde sua mãe aparentemente se esqueceu da sua imagem, querendo ligar para o filho que havia viajado, sem reconhece-lo no ser que estava na sua frente. Nesse momento, no mundo real, o celular de Cooper toca próximo ao local onde ele está no teste, e isso faz com que seu cérebro entre em colapso e ele morra. Acaba sendo uma alusão a algumas teorias de terapia psicanalítica, onde tudo termina com a mãe, seja consciente ou inconscientemente.

Talvez o maior pesar seja o fato de que, apesar de sua morte, Cooper não passa de mais um dado para a empresa de jogos. Esse pesar é grande porque sabemos que, no final das contas, o lugar para o qual fugimos não nos considera pessoas e sim números; e, tentando não soar tão clichê quanto parece, quando nos damos conta disso, geralmente é tarde demais.

Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears - hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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