CONSCIÊNCIA COLETIVA

Review: Black Mirror S03E03

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Review

Nota de Raphael
9.5/10
Média
9.5/10

O texto a seguir contém spoilers.

O terceiro episódio de Black Mirror, intitulado “Shut Up and Dance”, é até agora o capítulo mais perturbador dessa temporada. Apesar da criatividade com que o Ep02 foi desenvolvido (em breve review aqui), é em “Cala a boca e dança” que iremos ocupar um lugar muito incômodo como telespectador(a).

O roteiro escrito pelo próprio Charlie Brooker, com a ajuda de William Bridges (diretor de alguns curtas, como For Life (único que vi)), gira em torno de Kenny (Alex Lawther), um garoto que vive com a sua família e trabalha em um fast-food como ajudante de limpeza.

Logo nos primeiros minutos as armadilhas vão sendo plantadas, Kenny é apresentado como um rapaz carinhoso, que trata bem os clientes e é vítima de bullying. Sua aparência frágil e o seu olhar encantador, nos levam a criar uma instantânea empatia. Até quando ele exige, bem irritado, que a sua irmã não use o seu computador, logo após a garota tentar baixar um programa que abriu as portas para uma espécie de vírus, somos levados a ficar do lado do rapaz. Tudo soa bastante comum, é uma narrativa que conhecemos.

No dia seguinte, quando Kenny, trancado no quarto, liga o computador e abaixa as calças para se masturbar, vendo algum tipo de pornografia, sabemos que ele está em risco, já que fomos alertados que alguém passou a ter acesso ao que está acontecendo do outro lado a partir da câmera do notebook. O roteiro segue previsível, o rapaz recebe um e-mail com a recente filmagem e vai precisar realizar determinados comandos para que o material íntimo não vaze.

Alex Lawther em sua excelente atuação como Kenny.
Alex Lawther em sua excelente atuação como Kenny.

Além do debate sobre privacidade, que é importantíssimo e que continua pouco presente na mídia, é muito curiosa a forma como os eventos vão nos empurrando sempre para o lado de Kenny. Se a sua condição de rapaz sensível já nos compadecia, imagina como nos sentimos vendo ele ser ameaçado por figuras anônimas, tendo que entregar pacotes a desconhecidos e até assaltar um banco? O trabalho do Alex Lawther é um primor e quando o Jerome Flynn (ele mesmo, o Bronn de Game Of Thrones), entra em cena, a qualidade da dramaturgia só melhora.

Quem viu as temporadas anteriores de Black Mirror, sabe que o fator surpresa está quase sempre presente, mas confesso que nesse episódio fui fortemente manipulado (apesar da sua semelhança com um outro ep, White Bear, da segunda temporada). Ao descobrirmos que os(as) chantagistas anônimos(as), já catalogados por nós como vilões, estão usando aquele material para fazer justiça, inevitavelmente sentimos aquele um nó angustiante no estômago.

Estamos diante de uma realidade complexa e real. Milhares de usuários usam a internet para colocar em prática a sua vivência enquanto pedófilo. Não é fantasia, não é ficção, é um fato. Como estamos discutindo e combatendo essa prática? De forma organizada? Intensivamente? Estamos falando sobre isso com as pessoas que conhecemos? Que tipo de rede protetiva temos à disposição? Como essa sociedade da qual fazemos parte enxerga a pedofilia, estaríamos permitindo, facilitando, na medida em que não monitoramos os canais por onde ela vem se materializando?

São perguntas que parecem óbvias, mas que soam inconclusivas. Acabamos de assistir a uma narrativa onde os detalhes foram mais uma vez negligenciados. Entramos no tribunal, fomos enganados, mas provavelmente, após as revelações entregues nos minutos finais, elaboramos rapidamente um veredito, uma decisão que pode esconder o fato de que o crime cometido é também um reflexo do nosso silenciamento. Isso diminui a gravidade dos fatos? Não, e é exatamente esse o lugar incômodo ao qual me referi no começo do texto. A sentença veio para Kenny e para todas as outras peças que foram acionadas, para nós, a sentença é desafiadora: mobilizar a sociedade, falar a respeito desse tema, criar canais de prevenção, tratamento e monitoramento. Mais um episódio sensacional e importante para a sociedade, Black Mirror não decepciona.

Ps: É muito triste ouvir Exit Music (for a film) do Radiohead nos minutos finais, afinal, a letra funciona como uma espécie de chamado : Wake from your sleep (Acorde de teu sono).

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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