CONSCIÊNCIA COLETIVA

Review: Black Mirror S03E01

em Séries/TV e Séries por

Review

Nota de Raphael
9/10
Média
9.0/10

O texto a seguir contém spoilers.

A Netflix acaba de disponibilizar os 6 episódios que compõem a 3ª temporada de Black Mirror, série que dizem ser sobre tecnologia, mas que é também sobre tantas outras coisas. Lançada oficialmente em 2011 e um sucesso de crítica, a nova jornada mantém o excelente texto de Charlie Brooker, criador do projeto.

O primeiro ep, intitulado Nosedive (traduzido aqui como “perdedora”), conta, em linhas gerais, a história de Lacie (Bryce Dallas Howard, talentosíssima), uma garota que vive em um mundo onde as pessoas passaram a se relacionar a partir de uma rede social gigante, que permite com que todo mundo se avalie (usando aquelas famosas 5 estrelas que geram uma nota a partir de uma média). Conectado na retina, o serviço permite que você possa ver a pontuação e um perfil (com as fotos e informações pessoais/profissionais) de qualquer pessoa que cruze o seu caminho.

Lacie não só usa compulsivamente a rede social, como deseja que a sua avaliação se torne cada vez maior. Além do status, as pessoas que possuem maior média, são vistas como melhores, podem frequentar lugares e acessar serviços que outros(as), com pontuação menor, são proibidos(as).

Procurando concretizar sua ida para um novo apartamento, já que não está feliz no espaço que divide com o irmão, a garota é pressionada a aumentar sua pontuação, na tentativa de obter um grande desconto para o altíssimo aluguel cobrado. Quando sua amiga de infância, Naomie (Alice Eve), a convida para o seu casamento, onde estarão presentes convidados com notas altas e que podem impulsionar a sua média, Lacie percebe que tem uma grande chance nas mãos, e é nesse momento que os eventos começam a sair do controle.

bryce-dallas-howard-in-black-mirror-nosedive
Bryce Dallas Howard é Lacie.

Controle é uma palavra importante para entender esse episódio. Apesar da leitura mais evidente sobre o domínio das redes sociais, ao assistir a rotina daquela sociedade totalmente curvada, refém da tela, percebemos que a vida mediada a partir dos valores que projetamos, tendo o outro como referência, é o grande problema.

Como o tempo em Black Mirror é um importante personagem, o futuro é o hoje e o hoje tem indícios do amanhã, conseguimos entender, com aperto no coração, os valores de Lacie, entender as suas estratégias sem julgamento. Claro que o clima patológico, intencional, cria uma espécie de tensão quase sufocante, apesar dos sorrisos e da leveza das cores que pintam aquela sociedade. É tudo muito limpo, higiénico e congelante.

É perceptível que mesmo com o uso “democrático” da rede social, mesmo com a aparente possibilidade de ascensão, os status sociais mais enraizados continuam sendo reproduzidos. Estamos diante de uma sociedade branca, que utiliza o recurso digital para continuar mantendo as estruturas de classe. Percebam que o motorista de táxi, os(as) atendentes da lanchonete frequentada por Lacie, a recepcionista do aeroporto, todos são negros(as), enquanto os(as) convidados(as) do casamento, são em sua maioria, brancos(as). Em se tratando de Black Mirror, essa é uma camada importante, que pode não ser percebida por muitas pessoas.

Para além disso, temos Lacie e a sua relação com Naomie, que simboliza perfeitamente a forma como o fenômeno das redes criou modelos, padrões e valores que desejamos, quase que irracionalmente, perseguir. O outro é uma ilusão (não percebida) nesse contexto, boa parte dos dados que colocamos em rede, refletem aquilo que acreditamos ser aceito mais facilmente pela tribo na qual desejamos nos inserir.

Confesso que a sucessão de eventos após a partida para a cerimônia, não me agrada tanto, com exceção do encontro com a sensacional personagem da Cherry Jones (por quem sou apaixonado). Aquela carona, aquele diálogo no caminhão, foi um excelente recurso, nos coloca diante do hoje e das perturbações cada vez mais eminentes.

O final é devastador, como esperado, um mergulho pessimista no espetáculo, um desabafo ensurdecedor e já bastante contaminado pelo mundo que se faz presente. Um mundo que não questiona, que cria mecanismos simbólicos de segregação cada vez maiores, que aniquila qualquer possiblidade de pertencimento. Você deseja ser alguém, um alguém que não quer ser você. Essa é a lógica que está no comando. Interessante a cena final, talvez o momento mais fatalista e criativo do roteiro, Lacie e o outro prisioneiro (sem nome), expulsos da rede, sem o banco de dados à disposição, quase impossibilitados de criar ofensas, um registro fatídico da nossa dependência, um reflexo daquilo que nos conecta, que nos torna um(a) só, mas que nos separa paradoxalmente. Vale muito a pena conferir.

Em breve a review do EP 2, que será feita por Djalma. Volto para falar do EP 3, logo logo.

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

Último post de Séries

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas