CONSCIÊNCIA COLETIVA

O cinema e a lesbianidade: a visibilidade e a representação da luta pela arte.

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Quando surgiram as primeiras cenas que envolviam um clima de erotismo entre mulheres nos filmes, elas guardavam entre si sempre o mesmo teor e quase sempre eram pautadas sobre a mesma narrativa: duas mulheres que se envolviam, enquanto que os homens apenas permeavam a história. Seja em transas casuais ou orgias, o sexo lésbico quase sempre esteve presente em cenas que narram experiências extraconjugais de mulheres insatisfeitas com seus maridos e desconfortáveis com as cobranças de uma sociedade tradicional. Assim, essas mulheres encontravam nessa “aventura” uma chance de preencher vazios existenciais e etc.

A própria construção dessas cenas também é algo bastante questionável porque, em sua maioria, têm a intencionalidade de atingir o público masculino. Levando também em consideração que as próprias narrativas não envolviam um romance de fato entre essas duas mulheres, pelo contrário, reproduziam discursos homofóbicos e machistas da sociedade, percebo que os filmes não são voltados diretamente para o público lésbico, contrariamente, são destinados principalmente para o público masculino como forma de satisfazer um velho fetiche. Neste aspecto está o cerne dos questionamentos que este texto propõe discutir, ou seja, procuro identificar, a partir de minhas experiências como expectadora, se houve mudanças ou não e como é possível percebê-las nesse segmento cinematográfico. Não sou crítica de cinema, também não tenho talvez certa propriedade para sê-la de forma fidedigna. Talvez escape desse texto informações relevantes sobre o próprio cinema e sobre a indústria cinematográfica, mas o meu olhar é mesmo debruçado sobre os filmes a partir de como me sinto ou não representada nas histórias dessas mulheres, nas histórias de seus amores e de suas vidas.

A percepção que me acompanha, pensando numa ordem cronológica dos filmes a que consegui assistir e de outros que investiguei com cautela, é que, quando se começou a fazer uma crítica quanto a essa objetificação do corpo da mulher lésbica e do sexo lésbico no cinema, os personagens passaram por pequenas reconfigurações, e os casais começaram a ser compostos por uma mulher que necessariamente tinha que parecer com um homem e a outra que tinha que se comportar como a mais “afeminada” ou “feminina”. Ou seja, na tentativa de resolver um problema, o cenário cinematográfico derrapou em outras problematizações. Claro que esse problema era bem maior, era de ordem social, um estereótipo que existia e ainda existe sobre os casais lésbicos. Os discursos reais de que existe sempre uma das partes sempre mais “ativa”, aquela que resolve, que tem iniciativas, que é a parte forte da relação em vários sentidos, e a mulher “passiva”, aquela que espera as resoluções, que faz o papel de submissão, que é a parte mais frágil da relação. Essa representação foi refletida em diversos filmes e durante muito tempo, e ainda refletem até hoje, porém está menos frequente. São vários os filmes que se limitam a mostrar e enfatizar relações de poder entre duas mulheres. É muito problemática a maneira como o cinema dramatiza e romantiza esses tipos de estereótipos. 

Outro tipo de vírus que afeta as produções cinematográficas em relação às mulheres lésbicas é que quase sempre os personagens dos filmes passam por um processo de higienização e padronização para chegarem às telonas.  Ou seja, quase sempre ficam de fora dessa representação, mulheres negras, gordas, etc.

Pensando nas últimas produções que assisti, percebi uma mudança significativa no enredo, nas fotografias e até nas trilhas sonoras dos filmes. Fiquei mais atenta a essas produções quando assisti “La Belle Session”, lançado em julho de 2016, com direção de Catherine Corsini. Um filme francês que, além de trazer a temática lésbica, apresenta Delphine, uma personagem que está se tornando feminista e passando por situações novas em sua vida. É fácil se identificar com ela. Uma moça simples, trabalhadora, explorando uma cidade grande e nova. Um filme sutil e ultrarromântico.

Sem seguir nenhuma ordem, assisti depois “Freeheld” em português: “Amor por Direito”, lançado em abril de 2015. O filme dirigido de Peter Sollett trouxe um casal lésbico representado pelas atrizes Juliane Moore e Ellen Page. Conta a história real de uma policial chamada Laurel Hester na luta contra o câncer. Após oficializarem a união, Laurel entra numa batalha para garantir que a pensão, após sua morte, a casa e todos os bens que possui fiquem em nome de sua companheira Stacie.

Esses são bons exemplos de como as novas demandas sociais estão chegando aos cinemas. Há ainda uma grande dificuldade de encontrar uma identificação com essas personagens por todos os recortes que são necessários fazer quando falamos em representação, mas é importante não desconsiderar essas novas produções e continuar torcendo para que esse protagonismo nas telonas contemple cada vez mais os amores e as relações lésbicas em sua totalidade. O amor livre como instrumento de empoderamento e as lutas diárias que travamos pelo direito de amar quem quisermos. Afinal de contas, o grande poder da arte, além do de transformação, é o de subversão e resistência.

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