CONSCIÊNCIA COLETIVA

Penny Dreadful: Simbiose entre sobrenatural e existencialismo que dá certo

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O território do fantástico e do terror sempre foi alvo de inspiração de artistas e de fascínio do público. Mesmo obras de vanguarda, como O Grito do pintor expressionista Edvard Munch, guardam uma conexão com o inexplicável, possivelmente para nos fazer refletir sobre o que motiva uma das nossas sensações fundamentais: o medo.

Presente na literatura e mais tarde no cinema e na TV, onde personagens míticas como vampiros, demônios, monstros, lobisomens, surgem inicialmente para assustar e ameaçar a vida de inocentes –  ao estilo de exemplos clássicos como Drácula de Bram Stoker e Frankenstein de Mary Shelley – , o terror é peça regular da cultura contemporânea.


Reprisado em clássicos de terror adaptados como Drácula (1992) de Francis Ford Coppola, o medo do sobrenatural, fortemente difundido nos escritos do século XIX, serve até hoje de pano de fundo para a construção de narrativas, desde as mais focadas no horror até as mais apreciadas pelo público teen. Leia-se neste sentido, por exemplo, a Saga Crepúsculo, cuja profundidade psicológica das personagens e aquele elemento de pavor diante do desconhecido se dissolve em meio a uma história mais atrelada aos dilemas da adolescência como o primeiro amor e a perda da virgindade.

Mas como não só de narrativas superficiais e carregadas de sentimentalismo vive o espectador da 7ª arte e das produções desenvolvidas para outros meios como as séries de TV, atrações que buscam ‘pensar fora da caixa’ ganham espaço cativo entre o público. Este é o caso de Penny Dreadful.

Em exibição no Brasil desde junho de 2014, onde é transmitida pelo canal pago HBO e com duas temporadas encartadas na Netflix, a série foca nas histórias de personagens notórios – comercializadas em formato de folhetins ao custo de $ 1 penny à época da Inglaterra Vitoriana e que serviram para imortalizar a Literatura Gótica – , como Victor Frankenstein , Van Helsing, Drácula, Dr. Jekyll, Doryan Grey (Oscar Wilde), além de vampiros, lobisomens e bruxas em geral. No entanto, apesar de recorrer ao sobrenatural, a atração não se desvencilha das questões mais profundas, inerentes à existência do ser humano como traição, paixão, submissão feminina,  nudez, mas também mergulha em discussões mais amplas como a homossexualidade, travestismo, questionamentos religiosos, referências demoníacas, sangue e violência.

Dirigida por John Logan, roteirista de 007: Skyfall (2014) e já trabalhou em produções como Gladiador, O Aviador e Sweeney Todd – O barbeiro demoníaco da rua fleet, Penny Dreadful conta com análise positiva por boa parte da crítica especializada, inclusive ostenta 71% de aprovação no Metacritic (site norte-americano especializado em críticas de filmes, álbuns, videogames, programas de TV). E, apesar do ‘hype’ da série ser menor do que o de gigantes como Game of Thrones, Penny venceu o 4th Critics’ Choice Television Awards promovido pela Broadcast Television Journalists Association (BTJA) em 2014 como série mais emocionante. O seriado integrou o IGN Awards de 2014, no qual Eva Green, que vive a protagonista da atração, venceu como melhor atriz de TV. O programa teve ainda outras indicações e levou a melhor em categorias mais técnicas como fotografia, edição, som, em prêmios talvez menos conhecidos do público em geral como o Bafta Craft Awards, e em 2015 Eva Green foi indicada como Melhor Atriz em Série Dramática no 5th Critics Choice Television Awards, além de ter sido indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz um ano antes.

Os louros para Eva nesse sentido não são à toa. A atriz francesa, conhecida por papeis icônicos como a bruxa Serafina de A Bússula de Ouro, Angélica de Sombras da Noite, onde contracenou com Johnny Depp, além da general Artemísia de 300: A Ascensão de um Império, e a sedutora Ava Lord de Sin City 2: A Dama Fatal, é um dos, senão o maior trunfo de Penny Dreadful, onde encarna a médium Vanessa Ives.

Prova do protagonismo da personagem é que suas ações estão fortemente conectados ao andamento da história de outros núcleos e personagens como Sir Malcolm Murray (cuja boa interpretação fica a cargo de ex 007 e ator de comédias, Timothy Dalton) e do pistoleiro/lobisomem Ethan Chandler (Josh Hartnett), que fazem as vezes de protetores/família da protagonista.

Ponto para o seriado também é que somos constantemente apresentados às naturezas ‘dualistas’ da maioria dos personagens. Na primeira temporada da série, inclusive, mergulharmos, já nos primeiros episódios no universo sombrio de Vanessa – que ostenta um lado pacífico, comprometido em ajudar o próximo, e outro marcado por um espectro maligno.

A partir deste ponto alguns spoilers da atual temporada e das temporadas anteriores serão mencionados. Então se você não prefere não saber de alguns detalhes da trama antes de assisti-la, sugerimos voltar depois a este texto.

Atualmente no sétimo episódio (intitulado “Ebb Tide”) do terceiro ano, que foi ao ar no último domingo (12), a série vem dando mais vazão para que conheçamos as origens de outros personagens, para além de Vanessa, como o lobisomem Ethan e a necromante Hecate Poole (vivida pela belíssima irlandesa Sarah Greene), além do Monstro de Frankenstein, numa ótima atuação do britânico Rory Kinnear.

Apesar dessa ampliação da narrativa, ao que parece os protagonistas e o antagonista – encarnado nesta temporada pelo Conde Vladislau Draculia (Drácula), interpretado pelo estreante na atração, Christian Camargo, disputarão/tentarão salvar a ‘donzela’ Miss Ives (Green), nos últimos capítulos. O que resultaria num possível enfraquecimento da autossuficiência da protagonista, que até então vinha demonstrando poder cuidar de si mesma, já que encarna uma das forças sobrenaturais mais poderosas da natureza.

E, por falar em Vlad, talvez um dos únicos erros da série tenha sido a falha de continuidade, por assim dizer, efetuada da primeira para a segunda temporada, já que supostamente o vampirão deveria aparecer ao fim do 1º ano do seriado, devido ao desenrolar da história e à presença de personagens icônicos de sua própria história, enquanto personagem literário, como Mina Murray.

Ao que parece, os realizadores de Penny acharam melhor fazer valer a máxima de ‘em time que se ganha não se mexe’ e apostaram suas fichas, numa segunda temporada, em discorrer sobre a trajetória de Vanessa ligada às artes ocultas. Fato que nos entregou ótimos acontecimentos, como a ‘queda de Sir Malcolm’ e o enfrentamento dele e o Dr. Victor Frankenstein dos seus próprios medos, o encobrimento magistral de quem é a real entidade que habita Vanessa Ives, além de ótimas interpretações de personagens estreantes como a necromante Madame Kali/Evelyn Poole, na pele da britânica Helen McCrory (A Rainha) e a bruxa boa Joan Clayton (Patti LuPone), que de tão boa a sua interpretação voltou nesta 3ª temporada na versão reencarnada, Dr. Seward. 

Mas como nada é perfeito, Penny Dreadful apresenta algumas pequenas falhas de conteúdo, no que se refere ao desenvolvimento de alguns personagens secundários, que na visão de espectadores mais pragmáticos, já deveriam ter saído da atração ou mesmo nem ter entrado. Leia-se nesse sentido, principalmente, o Dorian Grey (Reeve Carney) que, a despeito de sua companheira de cena Brona/Lily (Billie Piper) e de seu flerte com o travestismo na temporada passada, teve sua importância diminuída na série.

Penny também pode estar deixando escorregar pelos dedos o personagem Dr. Jekyll (Shazad Latif). Incluído na trama aparentemente apenas para ajudar o Dr. Frankenstein a partir do desenvolvimento da fórmula, que no livro de Robert Louis Stevenson, é usada pra conter o alterego violento de Jekyll, Mr.Hyde, o personagem de Shazad parece que não terá o mesmo desenvolvimento complexo e conflituoso da sua inspiração literária.

Curiosidades sobre Penny Dreadful, que a tornam uma atração digna ao menos de ser assistida como algo ímpar:

  • Eva Green dá sempre um show em cena. A interpretação da atriz é capaz de transformar uma sequência filmada dentro de um quarto com apenas um outro ator e jogos de luz e sombra, numa das mais inquietantes do cinema de horror;
  • Josh Hartnett que interpreta o habilidoso pistoleiro e também lobisomem Ethan Chandler, protagoniza algumas das cenas de nudez mais bonitas em se tratando de uma atração cujo foco é o sobrenatural e o terror. O ator já trabalhou em Halloween 20, onde ganhou visibilidade como filho de Jamie Lee Curtis, por mágoa de cabocla jupira recusou-se a interpretar o Batman de Christopher Nolan e trabalhou em Pearl Harbor. Eleito um dos homens mais sexy pela revista People, é vegetariano e já militou na campanha Pró-Obama;
  • O elenco é prioritariamente inglês que vem do teatro, mas com experiências na TV e cinema, incluindo Rory Kinnear (Monstro de Frankenstein) que, em 2015, deu vida ao personagem Barry Fairbrother na minissérie de três episódios produzida pela BBC chamada The Casual Vacancy (Morte Súbita), baseada no romance homônimo de J. K. Rowling. Há também algumas particularidades: a Billie Piper – Brona Croft/Lile é uma cantora de pop inglesa. Fez a companheira do Doctor Who na série da BBC, assim como Timothy Dalton (Sir Malcolm Murray), David Warner (Professor Abraham Van Helsing) e Helen McCrory (Madame Kali), que já apareceram nesta série também.
  • A interpretação honrosa das personagens femininas marca o empoderamento do gênero na atração, que incluiu nos últimos episódios o contexto dos movimentos sociais da época, como a luta por direitos femininos por meio das sufragistas;
  • Uma língua própria ‘Verbis Diablo’ (baseada numa junção de aramaico, grego, latin e dialeto arábico) foi criada para a série por um professor de línguas antigas, curador da London Historical Societies, e introduzida na 2ª temporada da atração.
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Um aspirante à família Martell, que enlouqueceu o Chapéu Seletor com sua determinação de ir pra Sonserina. Adora uma problematização, afinal raiva leva ao lado sombrio! Integrante do Conselho Anallógicxs, faz jus ao seu meistrado na Cidadela com suas divagações de Bergman à performance Madonnística.

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