Memórias Póstumas de uma Princesa Disney

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Desde criança, disseram-me que o mundo real era muito difícil, e indiretamente me apresentaram ao (ir)real. Nele, eu só precisaria imaginar as coisas para que elas se tornassem realidade. Assim, tudo dependia da minha imaginação, inclusive o amor e os tão temidos e procurados relacionamentos amorosos.

No mundo real, os relacionamentos apresentavam muitas dificuldades, o tempo inteiro. A falta de dinheiro, incompatibilidade, diferenças de opinião, transtornos físicos e psicológicos, e o fardo de lidar com todos esses obstáculos fazia dele uma experiência horrível, algo impossível de se tolerar. Me falaram que esse tipo de união real era errado: ela só existia (e persistia) por pura comodidade. A união amorosa do mundo (ir)real, por sua vez, era linda e baseada em historinhas fictícias das princesas Disney. Naquelas histórias, a princesa passava por poucas e boas, mas quando encontrava o príncipe encantado, tudo se acertava: seria, então, feliz para todo o sempre, e nada mais importaria. Esse tipo de relacionamento me foi colocado como a versão de vida amorosa a ser alcançada; obtê-la era uma meta de vida.

Passei, portanto, grande parte da minha vida tentando alcançar essa meta. Inicialmente, apenas nos meus pensamentos, pois tinha medo da decepção – tendo em vista os exemplos reais que tive. Então, eu imaginava príncipes, ou tinha paixões platônicas que ficavam somente neste nível. Posteriormente, me iniciei nas tentativas reais (ou irreais?) de encontrar o meu príncipe encantado. Nestas, ao perceber que um “príncipe” tinha interesse em mim, eu fazia de tudo para me modificar a fim de agradá-lo: dizia ter os mesmos gostos, as mesmas vontades e me deixava levar por ele, imitando de maneira bastante fiel a minha princesa Disney favorita, a Ariel (de A Pequena Sereia), que nem falar conseguia. Fora isso, eu também me esforçava para ficar tal qual o padrão que ele gostava, como as verdadeiras princesas Disney faziam. A vontade do príncipe era, no final das contas, a vontade absoluta. E era impressionante o quanto eu me doava para ser essa princesa perfeita.

E o que dizer do “felizes para sempre”? Ora, em todos os filmes, apesar de todo o perrengue, o casal terminava sempre junto: o príncipe e a princesa seriam um do outro para toda a eternidade. Então, era assim que tinha que ser. Se as princesas podiam conhecer o príncipe e em pouco tempo o casal se apaixonava e logo se casava para iniciar uma vida somente dos dois, assim também seria pra mim! Não havia razão para que o meu príncipe falasse com mais ninguém – por que ele tinha que falar com outra princesa?

E toda aquela baboseira de ser “feliz para sempre” com meu príncipe encantado ia se esvaindo álcool abaixo, festa após festa.

Com essa mentalidade, criei meu próprio mundo irreal – mas aqueles com quem me relacionava não compartilhavam dele. Assim, príncipes entraram e saíram da minha vida, assim como as mais variadas expectativas, e a minha autoestima (também irreal, baseada no que eu via nos filmes) ia embora junto. Comecei a me perguntar o que havia de errado em mim: eu fazia tudo o que uma princesa deveria fazer, o que mais eu precisava para ter um príncipe que só se interessasse por mim e por mais ninguém, e que quisesse estar comigo o tempo inteiro?

Na minha cabeça, o erro partia de mim. Meus gostos, meu jeito, meu corpo, minha mente nunca seriam interessantes o suficiente para um relacionamento sério como o que eu sonhava – e isso me fazia cair em mim e ver lampejos de um mundo real que eu queria esquecer. Como a realidade sempre foi a pior opção, preferi acreditar que o melhor a fazer era ser só – eu já havia criado meu mundo e se ninguém queria estar dentro dele comigo, tanto fazia.

E eu era só, mas não ficava na solidão. Eu poderia não ter o meu relacionamento dos sonhos, mas conseguia alguém diferente sempre que eu quisesse – e momentaneamente eu era a princesa amada por um príncipe que sempre havia sonhado. Logo depois dessa sessão de amor, eu partia pra outra, porque o príncipe virava sapo logo, logo. Pelo menos assim, se não meus gostos, meu jeito ou minha mente, o meu corpo estava sendo tratado da forma que deveria ser.

E toda aquela baboseira de ser “feliz para sempre” com meu príncipe encantado ia se esvaindo álcool abaixo, festa após festa. Apesar de estar no mundo irreal, desistia cada dia mais da felicidade. Finalmente, desisti de ser princesa, e resolvi ser rainha má até o fim dos meus dias – que, segundo minhas contas, não seriam muitos (afinal, vilãs morrem no final da história – o felizes para sempre é só do casalzinho brega).

Continuava, portanto, a viver no mundo irreal, mas me dignei a ser a bruxa má e viver só; nutri ojeriza pelo amor – não queria saber dele, pois eu só me importava comigo e com mais ninguém. Que tipo de rainha má que se preze ligava para sentimentos alheios? Passei a colecionar troféus, conquistas e sucessos momentâneos, sem me preocupar minimamente com o que esses príncipes passageiros sentiam – bem semelhante à querida Rainha Má da Branca de Neve.

Morri, finalmente. Assim como as vilãs dos filmes. Deixei pra trás o mundo irreal, e acordei no meio do real. Neste novo mundo, percebi que os problemas reais da vida passada continuavam a existir, mas aqui podem ser enfrentados – de maneiras diferentes, partindo de pontos de vista diversos. Percebi que acreditar em um mundo irreal me trouxe fraqueza e, principalmente, insegurança. E foi essa insegurança que me fez mudar tudo pelos príncipes, meus jeitos, meus gostos, minhas vontades – e era ela também quem me fazia demandar tanto desses príncipes – queria exclusividade. Eu exigia exclusividade de amor, carinho, afeto, atenção. Eu exigia na realidade a salvação que me era devida de um príncipe, mas nenhum deles poderia me salvar de quem eu realmente fugia: eu, que estava comigo o tempo inteiro.

Eu me odiava, e era por isso que tentava escapar para um mundo irreal, precisando sempre da ajuda de um príncipe. Quando me dei conta, percebi que nunca poderia me separar de mim – e aí comecei a tentar ver qualquer coisa em mim que me deixasse feliz. Era só mudar a perspectiva da coisa. Funcionou. No mundo real, eu tinha muitos defeitos, dos quais eu fugia totalmente enquanto princesa – mas sabendo que tinha qualidades, consegui aceitar minhas falhas. Assim, consegui perceber que os outros também tinham defeitos – inclusive aqueles meus príncipes que foram embora. A minha expectativa era sempre maior daquilo que eles podiam me oferecer. Eu procurava perfeição no outro porque não conseguia acha-la em mim.

Finalmente, compreendi que o mundo real é feito por pessoas com falhas e qualidades, e que a compreensão delas faz um relacionamento saudável. Assim, notei que não era preciso repetir os tipos de relacionamentos do mundo real que me colocaram como exemplo – o autoconhecimento me levava à curiosidade pelo outro, e não apenas por mim. Comecei a me tornar confiante.

Essa confiança em mim me fez perceber o que é liberdade. De expressão, de sentimento, de falhas, de vida. Por isso, ao deixar de ser princesa Disney, me descobri sendo feliz só – mas só mesmo, sem precisar dos troféus momentâneos pra me sentir melhor. Sendo feliz só, o que mais vier é lucro. Caso alguém apareça, deve me agregar algum valor – e se não aparecer, tudo bem. O importante é que eu esteja bem – e livre.

 Olhando pro mundo, percebo a quantidade de pessoas que ainda vivem em mundos irreais – sejam eles Disney ou qualquer outro, fugindo da liberdade que lhes é cabida e procurando salvação onde nunca vão encontrar. Escrevo diretamente do limbo do meu mundo irreal para dizer a estas pessoas que existe vida fora dele. É só procurar um portão entreaberto e sair por ele. Se tiver totalmente fechado, arruma um explosivo. Funciona também.

AVISO:  A autoria deste texto é indefinida. Especula-se que tenha sido escrito ao início do século XXI, em alguma comunidade ocidental, mas o gênero dx autorx é desconhecido: avalia-se que possa ser de uma mulher chegando aos 30 anos de idade. Ou de um gay.

 

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Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears – hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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