CONSCIÊNCIA COLETIVA

A garrafa que guarda desejos e lembranças

em Autoral/Contos por

Era sexta-feira, por voltas das 23h30min. Lino mal havia colocado os pés naquele lugar, logo percebeu que só seus pés ficariam por ali, mesmo que ele permanecesse naquele local até o amanhecer. Franzindo um pouco a testa, colocou a mão no bolso, desistiu de tirar algo ali de dentro. Levou-a até o botão da camisa com estampa colorida e a deixou mais confortável. Voltou ao bolso e tirou de lá sua dose de vodka posta em uma garrafinha plástica laranja que mais parecia um minúsculo tubo de ensaio. Ele gostava muito dessa garrafa. Havia ganhado de um vendedor turrão numa dessas lojas de artigos chineses. Após limpar o lábio inferior com a língua, sugando a última gota do líquido ardente, o moço deu um giro de 180 graus no ambiente e fitou três pontos estratégicos: o local de venda de bebidas, o caminho para o banheiro e algum lugar que tivesse a cara de, ou pelo menos ensaiasse ser uma janela.

Lino é uma desses rapazes que sem muito esforço para se arrumar ou se apresentar, fica irresistivelmente atraente com uma ingenuidade no olhar que leva a qualquer um, fazer o pedido de casamento segundos depois do primeiro toque. Isso sem falar que a primeira coisa que ele faz ao conhecer um cara é dar um cheiro na testa. Caramba! Isso deve ser algum tipo de feitiço. A música começava a mexer com o corpo de Lino e ele já havia traçado o percurso que ele mesmo desenho algumas vezes. De repente sente que tem alguém o olhando com se gritasse seu nome repetidas vezes num tom de quem estava estranhando não ser atendido desde o primeiro grito. Um pouco desconcertado, Lino levanta o olhar e fita quem o chamava em silêncio. Sem hesitar, Lino caminha em direção aquele homem de aparência jovial, mas de uma maturidade biológica denunciada pela barba grisalha e algumas rugas que o deixava com cara de verdade. O tal homem estava arrodeado de pessoas. Homens e mulheres. Uma delas poderia ser sua companhia exclusiva. Lino não liga pra isso. Lino não liga pra um monte de coisas.

Segue sua caminhada em passos médios com o olhar firme, coloca a mão no bolso e tira a garrafinha laranja. Sem olhar para o objeto o entrega na mão do desconhecido que parecia se ofender com o não reconhecimento na hora do grito da chamada. Dificilmente alguém recusaria o convite feito pelas mãos mágicas daquele menino grande. Mas Lino estava preocupado mesmo era que com a recusa perderia sua garrafinha. Correu o risco.

Ainda Pensando na garrafa, desceu os primeiros degraus da escada que o levaria para outro ambiente da festa. Na passagem havia outro lugar para se comprar bebidas. Lino compra e segue sua caminhada. A compra não foi imediata. O tempo perdido na fila fez com que seu interlocutor chegasse ao local antes dele. Havia outros ambientes na festa. Aquele teria sido o escolhido por ambos. Faria parte do feitiço da garrafa laranja?

Havia naquela área um cheiro muito forte de cigarro. Lino normalmente não gosta de cigarros, mas teve naquele momento, um desejo quase que sexual, por um. Mas não podia ser qualquer um. Desejou que o homem de barba grisalha fumasse e lhe oferecesse um cigarro. Continuando a dar mostras de que era um excelente conhecedor de seus pensamentos, o homem agora desnudando Lino com os olhos vorazes, lhe oferece, ainda sem áudio, o cigarro que permite que seu cheiro seja sentido mesmo que o odor daquele lugar ser majoritariamente outro.

Você acende? Foi a primeira frase de Lino para o homem que balançando a cabeça num gesto positivo, atendeu de pronto ao pedido.

_Como chamam, ou como devo chamar o dono da garrafa mágica? Porque sei que você não deu pra mim quando fez com que eu a segurasse.

_ Lino. Esse é meu nome. Mas você pode me chamar como quiser. Fico feliz que não terei que dar explicações quando pedir de volta minha garrafa.

Entregando a garrafa e falando quase no ouvido de Lino O homem diz:_ não sou dado a explicações. E você pode me chamar de Tomás. Aliás, meu nome é Tomás. Você pode me chamar como quiser.

_Quero ficar o tempo que nos resta até o amanhecer em sua companhia e não quero sentir o cheiro de cigarro além desse. Estou no apartamento de uma amiga que não mora aqui, mas faz questão de manter seu lugar por essas bandas. Acompanha-me?

_Com toda vontade que há em minha alma! Estou de carro, mas não quero dirigir, Não porque bebi, mas porque não quero colocar sua vida em risco.

Cheirando a fronte de Tomás como faz alguém que dá o último golpe numa luta onde o vencido é também vencedor, Lino concorda em pegarem um táxi e seguirem até o apartamento da amiga dele que fica numa rua cartão postal da cidade do Recife.

Ao chegarem ao apartamento que tem uma varanda de frente para o rio, eles quase que num gesto ensaiado, tiram cada um sua camisa e olhando um para o outro e para as camisas que insistem em ficar presas em suas mãos se abraçam e como se conhecessem o sabor do beijo um do outro, se beijam de uma forma tranquila e abrasadora ao mesmo tempo. É o tempo deles. Sabem que esse tempo não será muito extenso e sabem também que não podem perder tempo pensando nisso.

Aquela foi uma noite linda velada pela lua que brilhava toda feliz e refletia seu brilho nas águas tranquilas do Capibaribe. Após acordarem seguiram suas caminhadas. Talvez nunca mais se encontrem ou talvez nunca mais se separem. De alguma forma a lembrança daquela noite permanece viva no tom laranja já gasto pelo tempo da garrafa que faz parte da decoração da casa de Tomás. Tem coisas que nos vem à tona em noite de sexta-feira.

  • Felipe Barbosa

    Contos ricos em detalhes que encantam, a magia de fazer com que o leitor entre no ambiente e faça parte da historia é incrível. Adorei a pegada sexy dos movimentos e pensamentos de Lino. Meus parabéns, e muito obrigado por compartilhar isso conosco ♥

  • Felipe Barbosa

    Contos ricos em detalhes me encantam, a magia de fazer com que o leitor entre no ambiente e faça parte da historia é incrível. Adorei a pegada sexy dos movimentos e pensamentos de Lino. Meus parabéns, e muito obrigado por compartilhar isso conosco!

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