CONSCIÊNCIA COLETIVA

Madonna: Corpo e Militância

em Homenagem/Música por

Em maio ocorreu o baile beneficente Met Gala, promovido pela revista Vogue, o qual o intuito é a arrecadação de fundos para o Metropolitan Museum, em Nova York. O evento não é uma premiação da música e nem do cinema, mas chama atenção pela massiva presença de celebridades que exibem figurinos extravagantes num dos tapetes vermelhos mais comentados e aguardados do ano.

E foi neste tapete que Madonna (58 anos) surgiu em um vestido de renda preta transparente da Givenchy, a popstar cruzou o tapete ao lado do criador do vestido, Riccardo Tisci, e causou frisson na internet por está com o bumbum a mostra e os seios com os mamilos cobertos apenas por uma fita adesiva. Fato suficiente para internautas recriminarem o figurino vestido pela artista julgando ser inadequado para a sua idade. O figurino de Madonna pode ter causado estranheza e choque nos que a pouco a conhece, mas para quem acompanha a sua carreira, sabe que a cantora sempre usou seu corpo como militância.

Madonna surgiu para o mundo no início dos anos 80, diferentes das cantoras que imperavam na época, ela era uma garota normal, com voz de adolescente e vestindo roupas de seu tempo, bem diferentes das musas Olivia Newton-John e Cher que tinham corpos ditos “perfeitos” e técnica vocal. Apesar dessa normalidade, a garota Madonna se amava e amava seu corpo, e fazia questão de expô-lo sem medo e sem repressão. Kim Gordon, baixista da findada banda Sonic Youth, comenta a relação que Madonna tinha com o seu corpo no livro A Garota da Banda:

“Para mim, ela parecia alegre, comemorando o seu próprio corpo. A maior diversão era sua atitude corajosa. Ela não tinha um corpo perfeito. Era um pouco mole, mas de um jeito sexy, não estava acima do peso, mas não tinha um corpo tão definido ou forte como teria depois. Ela era realista com relação ao seu tipo de corpo, e o ostentava, e você podia sentir como ela era feliz habitando aquela corpo.”

No final dos anos 80 Madonna não era mais uma garota e sim uma mulher, já era uma artista consagrada e ganhou o título de Rainha do Pop. Todas essas mudanças ocorridas na carreira da cantora, acarretaram mudanças também em seu corpo, a imagem de Madonna fica mais sofisticada e seu corpo emagrece e enrijece. Em 1990 a Rainha do Pop sai em turnê com a Blond Ambition Tour, exibe seu corpo escultural falando de empoderamento feminino usando espartilhos com sutiã em formato de cone criados pelo estilista Jean-Paul Gaultier. Nos shows desta turnê, na apresentação da música “Like a Virgin” a cantora simulava o ato de masturbação em si mesma, o que chocou os mais conservadores e principalmente a Igreja Católica – o Papa João Paulo II excitou um boicote aos shows na Itália e um teve que ser cancelado. Na Blomd Ambition Madonna surge empoderada e poderosa, seu corpo reflete isso com definições musculares nos remetendo ao cartaz feminista “We Can Do It!”.

Em 1992 Madonna decide explorar ainda mais o seu corpo, mas não exibe só sua imagem, nos apresenta também os seus desejos sexuais mais íntimos no projeto Sex Book, um livro fotografado por Steven Meisel. A popstar, sub o codinome de Mistress Dita, nos mostras seus desejos eróticos e sexuais, tudo com muita nudez e pornografia, chocando mais uma vez os mais conservadores. Apesar de ter sido visto como negativo por críticos e fãs, o livro foi sucesso de venda e até hoje é um dos livros mais procurados dentre os foras de catálogo. Logo após o lançamento do Sex Book, Madonna aproveitou o burburinho e lançou o seu quinto álbum de estúdio, o Erotica, cujo a temática abordava também o sexo e o desejo. O clipe do primeiro single, intitulado com o mesmo nome do álbum, é uma espécie de making off, mostrando cenas do livro enquanto a Dita profere seus desejos. Em meio a repressão sexual ocorrida nos anos 90 devido às primeiras vítimas falecidas pela AIDS, Madonna surge como irresponsável ao abordar o sexo de forma tão aberta, mas não era irresponsabilidade. Madonna evitava a repressão sexual, e mais do que isto, ela evitava que a repressão sexual fosse ainda mais forte para a mulher, como sempre foi, por isso expunha seu corpo totalmente despido e seus desejos totalmente revelados.

Durante toda a sua carreira Madonna fez questão de expor seu corpo, sempre se sentiu confortável com isso, ela ama o seu corpo e o usa como forma de ativismo. Madonna não é mais a mesma garota dos anos 80, não tem o mesmo corpo e frescor, mas ela ainda tem o direito de se sentir sexy e expor isso para o público. Foi assim que ela pôs um collant roxo e rodou o mundo na The Confessions Tour (2006); excursionou em pequenos figurinos na Sticky & Sweet Tour (2008-2009); despiu-se ficando só de lingerie ao cantar “Like a Virgin” na MDNA Tour (2012); e rebolou sua bunda na cara da plateia apresentando “Holy Water” na Rebel Heart Tour (2015-2016). Diante de todos estes fatos há motivos para se espantar com Madonna usando um vestido transparente? Não! Mas a motivo para se espantar com a misoginia e o preconceito para com as mulheres que envelhecem e amam o seu corpo.

A polêmica causada com o vestido de Madonna no Met Gala prova o quão a artista é importante na nossa sociedade, mostra como ela está sempre abrindo portas, revelando como gente precisa amar nosso próprio corpo e também devemos respeitar as pessoas que amam o seu próprio corpo. A respeito do preconceito sofrido a artista comentou na sua conta do Instagram:

“Nós sempre lutamos e continuaremos lutando por direitos civis e gays ao redor do mundo. Quanto aos direitos das mulheres, nós ainda estamos na era das trevas. Meu vestido no MET Gala foi uma manifestação política assim como uma manifestação fashion. O fato de algumas pessoas ainda acreditarem que uma mulher não pode expressar sua sexualidade e ser aventureira após uma certa idade é a prova de que ainda vivemos em uma sociedade etarista e sexista. Eu nunca pensei de uma forma limitada, e não vou começar agora. Nós nunca estaremos provocando mudanças a menos que aceitemos os riscos de sermos destemidos e passarmos a percorrer a estrada menos percorrida. É assim que mudaremos a história. Se você tem algum problema com a forma como eu me vesti, isso é apenas uma reflexão do seu próprio preconceito. Eu não tenho medo de abrir caminhos para as garotas que vem depois de mim. Assim como Nina Simone disse uma vez, a definição de liberdade é ser destemido. Se junte a minha luta pelo gênero. Igualdade!”

O corpo de Madonna continua sendo ativo e ativista, precisamos muito dele para desconstruir nossos preconceitos e transpor barreiras em busca da igualdade.

João Gusmão é formado em Letras pela UFPE, é professor, corretor e freelancer. Escreve sobre música e comportamento, apreciador de música brasileira e literatura contemporânea. Publica mensalmente no dia 8, save the date | Para segui-lo no Facebook: /joaoagusmao

  • Janaina Diggi

    Lacradora

  • Karina

    Que texto incrível, assim como essa mulher

  • Daniel Lima

    Que gata, gostosa

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