CONSCIÊNCIA COLETIVA

Guerra do Velho, uma ficção sobre a juventude enquanto estado de permanência

em Estrangeira/Leitura por

Review

Nota de Raphael
8.5/10
Média
8.5/10

Finalmente consegui terminar a leitura de Guerra do Velho e confesso que precisava falar um pouco sobre o texto do John Scalzi. Nos últimos meses muitas resenhas desse livro foram lançadas nos sites e blogs especializados, mas eu queria registrar aqui os temas que conseguiram me deixar sem fôlego (e não foram poucos).

Primeiro, é verdade, a escrita do Scalzi é realmente bastante acessível, o que não significa que estamos diante de uma narrativa pobre. Pelo contrário, o fluxo é bem estruturado e os capítulos são fechados em arcos bem delimitados. A história de uma sociedade que recruta homens e mulheres aos 75 anos, para que eles façam parte de um exército espacial, já é bastante curiosa e empolgante, porém o autor rapidamente mostra que a sua história é, na verdade, sobre alguns aspectos da condição humana, ou seja, vai muito além desse plano de fundo.

Jonh Perry, o protagonista, se torna um personagem cativante logo nas primeiras linhas. Suas palavras iniciais, que recuperam a relação com a sua esposa já falecida, são de uma delicadeza ímpar. Para além dos atos heroicos, estamos diante de um homem com 75 anos, que não tem vergonha de sentir saudade, que consegue fazer um apanhado bastante poético do passado. Para nossa sorte, esse desenho da personalidade do futuro soldado é tão bem construído, que quando finalmente somos inseridos no universo das tropas espaciais, parece que os sentimentos compartilhados por Perry já estão na nossa bagagem.


É possível dizer que a arquitetura desse cenário, apesar de bem referenciada em outras produções (da literatura e do cinema), não soa datada. Você tem a sensação de que estar em um terreno já conhecido, mas que se transforma de forma bastante criativa. Como leitor, começamos a levantar os nossos próprios muros, dentro da essência e das possibilidades ofertadas pela imaginação do escritor. Se você gosta de narrativas ágeis, com engrenagem pulsante, vai se sentir muito feliz dentro desse universo. Possivelmente muitos vão, por exemplo, se encantar com o sistema de comunicação dos combatentes, sem dúvida um dos pontos mais fortes e importantes da história. Sensacional mesmo. Gravem essa palavra: BrainPal. Você vai querer ter/ser um. Nem preciso dizer que é muito empolgante conhecer novos povos, novos estilos de vida e diferentes culturas. Incrível como sentimos, diante das batalhas e das invasões de outros planetas, como pensar sobre ética e respeito é uma atitude fundamental.

Para quem acha que se trata de um livro essencialmente de ação, fique certo que não é. Guerra do velho é uma viagem espetacular, que trata de temas como amizade, abandono, saudade e desejo. Acreditem, diante disso tudo, ainda conseguimos dar boas risadas. Existe um humor muito pontual, que se revela em momentos bem inesperados. Achei, de verdade, um trabalho muito bacana, que não soa pretencioso e que arrisca boas saídas.

O Destaque final (e nem de longe menos importante), fica para a forma como o autor naturaliza e trata o sexo e a diversidade. Personagens flutuam entre diferentes estereótipos, nos entregando camadas curiosas sobre o comportamento humano. As questões que envolvem o processo de construção das identidades são muito interessantes e nos fazem pensar por horas e horas. Por falar no tempo, ele é de fato a espinha dorsal do livro. Não esse tempo cronológico que o relógio marca, e sim o tempo das sensações, dos amores e das abstrações que esquecemos de perceber e valorizar. Espero que gostem e que muito em breve estejamos todos conversando por BrainPal.

Sejamos todos recrutados e até a próxima.

PS : Ainda não superei algumas mortes desse livro e não pretendo mesmo superar.

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

  • Gostei do livro, mas a tensão final foi um pouco anticlímax. A questão de como nos relacionamos com o tempo e a velhice foi bem interessante. E como o corpo é apenas um receptáculo que guarda as experiências da vida, mas não é tudo o que define a nossa existência.

    • Hugo

      exatamente cara.

  • Leo

    Fiquei super afim de ler.

  • Hugo

    Achei o final cagado.

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