CONSCIÊNCIA COLETIVA

A Culpa nos Relacionamentos

em Comportamento/Opinião por

Angústia, sensação de remorso, negativismo sobre si mesmo e autopunição: estes são apenas alguns sentimentos que estão atrelados à culpa, que é o foco deste texto. Mas aqui iremos analisar e refletir como ela se expressa no contexto de um relacionamento, seja qual for, a partir de minha experiência e de pessoas próximas. Teremos como objetivo discutir esse sentimento tão presente na vida das pessoas e que as afeta de forma substancial no que se refere aos relacionamentos amorosos, até mesmo impedindo-as de adentrarem em uma nova relação.

Presencio diariamente nas redes sociais, especialmente no facebook, pessoas reclamando o quão estão sozinhas e o quão os seus relacionamentos, quando possuíam, eram destrutivos. Frases como “Alugo-me para o dia dos namorados” e “ninguém me quer” são frequentes, mesmo tomadas em um ponto de vista mais humorístico e que mascaram, na grande maioria dos casos, uma grande insegurança e até uma parcela de culpa, mesmo que disfarçada de bom humor. Um dia desses vi no facebook de um amigo uma sequência de imagens, com os dizeres: “ tutorial de meus relacionamentos” que dava um passo a passo de um modelo de relação amorosa que, apesar de possuir um início aparentemente saudável, não tinha um bom desfecho, terminando com as seguintes palavras: “a pessoa enjoa de mim, termina e eu me fodo”.

Brincadeiras estas que denotam, além de todos os sentimentos negativos anteriormente citados, uma grande parcela de culpa. Tomando como exemplo o caso referido, o indivíduo provavelmente deve se sentir culpado por sempre se sentir “rejeitado” nos relacionamentos que possuiu. Aquele sentimento de culpa que vem sempre atrelado com a frase clássica: “qual o problema comigo?” que, mesmo não se expressando em palavras, temos em nossos pensamentos. No fim de um relacionamento, especialmente se não fomos nós que terminamos, constantemente surge uma sensação de inadequação, de que temos algo ou fizemos algo de errado para que o sujeito de nossa afeição tenha nos rejeitado. Neste contexto pode vir a surgir a culpa, que vai se tornando maior se a alimentarmos.

Nos sentimos culpados pelo que supostamente fizemos de errado e passa uma espécie de “filminho” nas nossas cabeças nos transportando de novo para as situações passadas, onde as analisamos e pensamos “ e se eu tivesse feito diferente aqui?” E isto, para uma parte das pessoas, acaba durando por meses, e até mesmo anos. Muitas ficam com medo de iniciarem relacionamentos amorosos por ainda sentirem culpa do que supostamente fizeram nas relações anteriores. E às vezes esse sentimento é tão grande que até as justificativas mais bobas se tornam motivo para explicar a rejeição: em uma conversa com um amigo sobre o tema, ele me falou que sempre se sentia culpado quando as relações dele terminavam por se achar gordo demais. “Eu achava que sempre terminavam comigo pelo fato de ser gordo, me sentia péssimo, vivia me culpando e rejeitando a mim e meu corpo”. No caso dele, ainda os términos eram marcados, geralmente, por traições da parte dos ex-namorados, o que contribuía de forma significativa para o fortalecimento deste pensamento, pois serviam como justificativa, pois, para ele, o traíam por não o considerarem atraente. Já outro me relatou que se culpou em uma época por ter a rotina corrida, já que era estudante de medicina e tinha pouco tempo para se dedicar ao relacionamento, mesmo falando com o namorado todos os dias e o vendo cerca de duas a três vezes por semana. O relacionamento terminou e ele se culpou bastante, a ponto de achar que era impossível conciliar uma carreira com um relacionamento saudável.

A culpa também possui se faz muito presente também quando ocupamos a posição de “parte que rejeita”, em que muitas vezes esse sentimento vem acompanhada]o de arrependimento: “ eu não deveria ter terminado com ele / “ele está sofrendo muito por minha causa” são frases que frequentemente são pensadas por pessoas que se sentem culpadas após terem tomado a iniciativa para terminarem um relacionamento. Uma amiga, a qual chamaremos de K, me relatou que passou 3 anos se sentindo culpada após terminar seu namoro de 1 ano e meio. Ela narrou que encerrou o relacionamento pelo fato de não se sentir mais feliz com a ex-namorada, já que elas brigavam bastante pelos ciúmes da referida. Após ter terminado, sua ex sofreu bastante, entrando em um processo depressivo, tendo que ser tratada com medicação. K relatou que tomara conhecimento da situação de sua ex e se sentia responsável pelo estado de saúde dela, aliado ao fato de que amigos e pessoas próximas, em sua maioria, ratificavam essa culpa e constantemente a questionavam o porquê dela não voltar com sua ex, já que estava sofrendo muito, além das duas “combinarem” aos olhos dessas pessoas. K no início achara que havia tomado a decisão certa e não se culpava por isso, mas de tanto ouvir dessas pessoas que ela deveria voltar e de ver o sofrimento de sua ex, passou a se sentir culpada e assim resolveu se afastar dessas pessoas e de sua ex-namorada, a fim de tentar minorar esse sentimento, que se tornara insuportável para ela.

A culpa se maximizou e passou a se considerar uma pessoa má, infeliz e incapaz de fazer alguém feliz, já que foi responsável pela dor de outra pessoa, que injustamente merecia passar por aquilo. Com este pensamento fixo, K afirmou que há 3 anos não consegue se relacionar com mais ninguém; sempre quando começava a se envolver mais profundamente com alguém, ela se autosabotava, fazendo com que a pessoa se afastasse ou relatando para a “ficante” que não queria mais se envolver. K hoje tem acompanhamento psicológico e está aos poucos superando isso. “ Eu me impeço de ter um relacionamento saudável e de ser feliz com alguém, pelo fato de me sentir culpada por todas as coisas negativas que aconteceram no meu relacionamento anterior”, narra ela. E K destaca: “ inclusive essa minha ex já está em outro relacionamento, mas eu me puno inconscientemente há anos”. Neste caso, como vemos, a culpa tomou uma proporção gigantesca, a ponto de “travar” a vida de uma pessoa por muito tempo. A crença arraigada de que K é uma pessoa má e não merecedora de um relacionamento foi fruto de uma concepção negativa da sua relação anterior, no qual ela se deixou levar pelas circunstâncias e pela opinião das pessoas e assim tomou a culpa para si, a ponto de deixá-la como sentimento base para sua vida.

Vemos que, quando lidamos com a culpa, sempre saímos perdendo, seja qual for a posição que ocupamos no término de uma relação. Embora o destaque o tempo todo tenha sido na separação, ela é bastante comum no decorrer do relacionamento. Volta e meia as pessoas se sentem culpadas pelos sentimentos dos outros, como em casos que o outro se sente triste por coisa que dissemos ou também quando nos sentimos culpados pela insatisfação ou desagrado do outro. Para melhor exemplificar isso, tomo como base uma experiência minha: constantemente me sentia culpado por reclamações que recebia em uma relação, de coisas bobas, como a forma como respondia as mensagens no whatsapp, julgada pelo outro como “seca” e também pela percepção do outro de que eu estou sempre “triste” pelo simples fato de não ser uma pessoa muito expansiva e expressiva. Eu me recordo que me sentia bastante culpado por não corresponder à expectativa do outro e este também sentia culpa por eu me sentir assim, e isto consistia em um ciclo que os dois saíram perdendo, até que a relação acabou e o que aconteceu? me senti culpado pelo fim e comecei a comer descontroladamente como uma forma de autopunição, mesmo que inconsciente. Para superar isso, demorei muito tempo, a partir do momento que tomei consciência de que não há culpados quando um relacionamento acaba.

Nos meus relacionamentos, geralmente eu sou a parte que sofre a rejeição, e durante muito tempo tive que conviver com culpa, e confesso que até hoje ela ressurge quando eu menos espero. É um pouco difícil lidar, porque sempre em uma relação, especialmente quando termina, temos a tendência de procurarmos culpados para isto. Só que não existem culpados para o fim de um relacionamento: simplesmente temos que aceitar que aquela união, naquele momento, não dá mais certo, mesmo que a outra parte sofra bastante com isso. Acredito que o objetivo primordial de todo ser humano é ser feliz, e não dá para sentir felicidade em uma relação desgastada, que não nos faz bem. As vezes mantemos um namoro ou casamento destrutivo porque estamos acostumados, por conveniência ou até mesmo para não ficarmos sozinhos. Só que temos que ter coragem para encarar a realidade, de que aquela relação não está mais sendo saudável para nós. E mesmo que apenas uma das partes ache isso, temos que nos conformar, porque afinal, o que adianta ficar com alguém que não se sente feliz com a gente ou mesmo não se sente feliz consigo mesma, para estar em um relacionamento?

Quando aceitamos que não existe culpa quando um relacionamento acaba, aí sim temos coragem para seguir em frente sem arrependimentos e sem sentimentos negativos, e ficamos de bem com o outro e com nós mesmos. Cada um é o melhor que pode em determinado momento da vida, e não tem sentido ter qualquer tipo de culpa quando se tem isso em mente. Chega um momento em que as pessoas simplesmente não combinam mais em um namoro, mas isso não quer dizer que não possam ser amigas, já que o carinho e o amor geralmente não acabam de uma hora para a outra.Na vida, sempre estamos entrando em novas relações no decorrer do tempo e também desfazendo-as e ressignificando-as. Aceitar que a vida é esse eterno fazer e desfazer é sinal de maturidade, que vamos aprendendo com o tempo; não devemos nos lamentar nem sentir culpa, já que outras relações esperam por nós e esta que tivemos será remodelada e será assim no decorrer de nossas vidas.

Sim Igor, e como lidar com isso? Tendo como base minha opinião, a culpa deve ser combatida sempre com um sentimento positivo em relação ao relacionamento, toda vez que um pensamento negativo surgir. Me senti culpado por não ser tão amoroso quanto ele esperava? rebato com o pensamento que eu fui o melhor que pude. Me senti culpado por falar algo que achei necessário que ele se sentiu mal e não gostou? penso que foi preciso falar isso e ele tem que aprender a lidar com uma crítica. Me senti culpado porque o outro está mal e até doente com o fim do relacionamento? respondo com a ideia de que todos passam por términos no decorrer da vida, e cabe a ele aprender a lidar com isso, já que a vida exige e é dura com todos, não apenas com ele.
Gostaram do texto? aceito e preciso de sugestões para o próximo, no qual tratarei sobre o Medo nos relacionamentos. Do que vocês sentem medo em uma relação? sentem medo de iniciar novos relacionamentos? sentem medo de terminar ou de dar uma nova significação para seu namoro ou casamento? deixem seus comentários!

gor é publicitário e bacharelando em direito com especialização em linguagem jurídica. Escreve sobre música e cultura pop. Apaixonado por cinema, games e drag queens | Para segui-lo no instagram: @igoricael

  • Thiago L

    Bem isso Igor

  • Erick

    Olha, eu já sofri disso e é péssimo.

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