CONSCIÊNCIA COLETIVA

Todo mundo já teve um Mr. Big.

em Comportamento/Opinião por

Outro dia, numa mesa de bar no centro do Recife, me vi conversando com uma amiga, que assim como muitx de nós, já vivenciou e, quem sabe, vivenciará uma não-relação com alguém que é um “Mr. Big”. Eu havia acabado de ter um date e, até aquele dado momento, foi bem sucedido. O fato é que aquilo me colocou em um estado de epifania no qual eu pude constatar que até então eu só havia me relacionado com homens “Mr. Big”.

Quem acompanhou a série Sex in The City sabe a quem me refiro, quem é o homem Mr. Big. É aquele homem que se mostra (inicialmente) sedutor, cortês, atento e, acima de qualquer coisa, cem por cento interessado em você. É um homem com uma “grande personalidade”, por isto o Big. Com o passar do tempo ele na realidade te mostra que é evasivo, egoísta e que tem uma dificuldade enorme em se comprometer, mas em se comprometer com você. No geral, depois de algumas saídas contigo, ou ele acaba surgindo com um relacionamento sério nas redes sociais ou então some do teu círculo de convívio, do bairro, da cidade, quiçá do estado. O que motivou o Mr. Big a agir assim? Jamais saberemos. É… Jamais.

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No ápice das nossas especulações nós acabamos nos sentindo incapazes de tomar uma atitude questionadora, de colocar o Mr. Big contra a parede e dizer “e aí, boy, qual é a tua?”. Se já fiz isso com alguém? Não. Gostaria muito, mas não. Infelizmente. A explicação mais frequente que a gente (se) dá é a de que não vivemos um relacionamento sério com o outro e, portanto, não podemos “cobrar nada”. E digo que essa é a tentativa de justificativa mais comum por já ter vivenciado história(s) com Mr. Bigs e por ter feito uma “pesquisa de campo” com vários amigx que já vivenciaram uma não-relação dessas também. E o Mr. Big sabe da não-relação que existe e usa ela como escudo pra entrar e sair das nossas vidas quando quiser como se a porta estivesse sempre aberta.

O Mr. Big é realmente uma figura intrigante. Sim, ele é! Por que te coloca num estado de vulnerabilidade emocional extremo, quando na verdade o mais vulnerável e inseguro é ele. Eu diria que ele é até covarde (?). Explico. Nos dias que vivemos todos nós, inclusive o Mr. Big, por mais desconstruidão que possa ser, tem suas raízes no conservadorismo e tenta ao máximo proteger sua face pra que não seja rotulado como o trouxa da (não)relação. Ninguém quer ser o trouxa e é nesse pavor de ser que acabamos sendo, todos nós.

Não nos permitimos, não nos dispomos a vivenciar ou tentar experienciar uma relação sólida porque a urgência da vida diz que precisamos ser líquidos.  E nossa liquidez entra em ebulição e evapora tão rápido quanto a nossa emergência em viver que quando nos damos conta estamos com uma lista de pessoas que passaram por nossas vidas, nos marcaram de alguma maneira e que vamos fingir que não conhecemos quando encontrarmos em bares ou festas.

A última característica comum do Mr. Big é o “eterno retorno”. Como a (não)relação não teve um fim, o ciclo não se fechou, a porta está sempre entreaberta. O Mr. Big vai tentar se fazer presente por um like em um status, uma foto, uma direct parabenizando você… ele sempre vai buscar maneiras de não se fazer esquecer. Não sabe ele o quão inesquecível já é, mas não da maneira mais positiva.

Luíza é graduada em Letras pela UFPE, estudante de Direito na UNINASSAU. Escreve sobre a vida cotidiana e as relações interpessoais, e de vez em quando sobre cinema. É curiosa e adora observar as pessoas, seus discursos e suas práticas. Publica mensalmente no dia 12, save the date | Para segui-la no Instagram: @madluiza

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