CONSCIÊNCIA COLETIVA

O silêncio da geração TCC

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A vida acadêmica, mesmo diante da democratização e expansão estrutural dos últimos anos, ainda é um privilégio. Repleta de folclores e de desafios, ser um jovem universitário hoje, no Brasil, é viver uma espécie viagem com destino quase desconhecido. Na bagagem, você vai acumulando uma série de perguntas que não serão respondidas e acaba recebendo de graça milhares de vícios que dificilmente vão desaparecer.

Enquanto as especificidades (reais) de cada área do conhecimento são usadas erroneamente, para justificar o maior investimento em determinados cursos e a deterioração de outros, vamos nos afastando gradativamente das necessidades concretas e urgentes da sociedade, inclusive daquelas que moram ao lado dos muros do próprio campus.

Essa semana um médico corrigiu de forma preconceituosa a fala de um paciente, usando o seu “conhecimento” acadêmico elitista, que supervaloriza a norma culta, para aprofundar ainda mais essas distâncias. O curso de medicina, por exemplo, ainda é um celeiro de brancos e burgueses, formado em grande parte por filhos de empresários, grandes comerciantes, advogados e engenheiros. São jovens que tiram as maiores notas nos vestibulares, que conquistam esse espaço frequentando os cursinhos mais caros da cidade. Perguntas surgem inquietas: qual a visão de mundo desses estudantes? Qual o papel social que eles pensam (se é que pensam) que possuem? Estão eles familiarizados com a realidade da maioria das famílias brasileiras? Com os seus futuros pacientes?


Nas outras áreas essa fissura se repete e se manifesta de outras formas, inclusive nos cursos de Licenciatura. É assustador, mas muitos licenciados não estão interessados em investigar e atuar nas escolas, eles ingressam nos cursos para se projetarem como grandes pesquisadores. É excelente que a pesquisa faça parte da nossa formação, mas perguntas como: para quem estamos pesquisando? Sobre o quê? Olhando para onde? são quase nunca levantadas. Por mais que alguns professores bem-intencionados, de fato, se preocupem com essas questões, são raros os que abrem caminhos visíveis e possíveis para que os alunos possam realmente se sentir inquietos diante do que vem sendo discutido na sala de aula. Na verdade, muitos alunos acabam retirando o tema do seu trabalho de conclusão da bibliografia de alguma disciplina ou acabam se submetendo ao que algum professor já vem pesquisando.

Pesquisar, certamente, não é achar um título apenas e sair criando uma sinfonia de citações. Pesquisar deve significar: mergulhar, diagnosticar, reverter, confirmar, retribuir, propor e antes de tudo transgredir a realidade. O problema é encontrar tempo dentro desses cinco anos para ser perceber como agente ativo dessa jornada. Não existe muita democracia nos espaços acadêmicos, é tudo pré-determinado e imposto. Acabamos nos sentindo pouco protagonistas e passamos rapidamente a seguir os comandos. Não somos vítimas isoladas, isso é certo, mas estamos de fato dentro de um sistema opressor, que ainda é mediado por relações de poder verticais e que silencia os mais fracos (em importância Lattes).

Claro que esse texto não é um retrato determinista da realidade acadêmica, nem é o que pretende ser. Afinal, existe uma teia bastante complexa e rica, que pode nos mostrar dados até bem positivos. Porém, é preciso ficar atento, em alerta, procurando entender essas diferentes realidades. Apesar da diversidade de experiências, muitas práticas estão presentes de forma homogênea e isso, sem dúvida, é um sinal preocupante. O conhecimento construído dentro da sala de aula é o conhecimento que pode contribuir para transformação dessa sociedade tão repleta de doenças. Vamos torcer que daqui para frente esse debate fique ainda maior, que a comunidade científica comece a entender que mais importante do que a nota da monografia e do que a sua vaidade, é a vontade de querer mudar as bases desse sistema que tanto nos sufoca e (contraditoriamente) vem nos libertando.

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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