CONSCIÊNCIA COLETIVA

Revisitando : Karina Selvática

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Refaço! Rechaço!
Não lhe devemos nada
Não nos verás na escuridão como capacho…

Esses são os primeiros versos de selvática, faixa-título do terceiro trabalho da baiana-pernambucana Karina Buhr, e sem dúvida resumem bem o que a cantora quis dizer ao público neste álbum. “Fui inspirada pelos animais selváticos e pela maneira como as mulheres são descritas nas narrativas sagradas”, disse a cantora em uma entrevista.

Lançado em setembro de 2015, o disco gerou polêmica logo na divulgação. O Facebook censurou a foto da capa, porque aparecem os seios da cantora. Prontamente, várias outras pessoas saíram em solidariedade à artista e a hashtag #Selvática ganhou corpo.

Ironicamente são essas atitudes conservadoras que o Selvática vem questionar. O disco vem repleto de mensagens feministas, de igualdade de gênero e críticas sociais, um grito que ecoa nas 11 faixas do trabalho. É a selvageria necessária pra sacudir e agredir os padrões normativos, o machismo e um sistema seletivo que estabelece, por exemplo, que a nudez da Karina fere as políticas das redes sociais, mas libera o vídeo da globeleza legitimando assim, o estereótipo da mulata-lascívia-objeto sexual.

O álbum agradou a crítica especializada. A revista Rolling Stone colocou Selvática entre os 10 melhores lançamentos de 2015 e a faixa “Eu sou um Monstro” figurou nas melhores gravações do ano.

Em Selvática, Karina mesclou elementos do punk, rock, reggae e batidas regionais. Frutos da sua bagagem cultural eclética ritmada no Maracatu, na Comadre Fulozinha e nas artes cênicas.
Vamos aqui fazer rapidamente um passeio pelas 11 músicas do disco:

1. DRAGÃO. A faixa de abertura prepara o terreno e diz a que veio Selvátiva. “Enfrentar leões, enfrentar, Passar por cima de uma coisa que tá no lugar da outra…”

2. EU SOU UM MONSTRO. Nas palavras da própria Karina, “a música fala da canseira da princesa ‘rosa-loira-adormecida’ que tanto nos atormenta e vive querendo virar monstro, já sendo. É aquela fera puxando as rédeas e escolhendo pra onde vai, saindo da inércia, que resolve o que vai fazer e sabe o que vai acontecer com ela”. (Rolling Stone)

3. CONTA GOTAS. Aqui a voz suave da Karina traz críticas embaladas para “… bocas cheias de bala e vício…”.

4. PIC NIC. O punk da Karina vem à tona pra problematizar o cotidiano da classe média que tenta resolver suas agruras no psicólogo. “… Corro pra minha vida. Acordo pra corrida. Corro pro salário. Seu esquema otário…”.

5. ESÔFAGO. Batidas fortes pra questionar padrões e o machismo. “… ‘Eu não posso te deixar, te deixar, querida minha. Te levarei junto. Disse o assassino. Com aplausos do público…”.

6. CERCA DE PRÉDIO. Mais uma faixa punk que denuncia a atual especulação imobiliária do Recife. Com participação de Cannibal do Devotos, a faixa é quase um estandarte do Ocupe Estelita. No Rec-Beat, Karina apresentou a música junto com a Troça Carnavalesca Empatando Tua Vista. Sem dúvida, um dos momentos mais marcantes do nosso Carnaval 2016.

 7. VELA E NAVALHA. Depois do peso de Cerca de Prédio, uma canção mais leve com doses de melancolia. “… Quando você escorrega, te peço nada. Te desejo um cento de ouro…”.

8. RIMÃ. Doses de feminismo entoadas com batida regional num lamento reflexivo. “A aerodinâmica do inseto que não pesco porque não sei mais voar. Preciso aprender de novo. Preciso.”

9. ALCUNHA DO LADRÃO. Um reggae para denunciar as nossas mazelas sociais. “Não era esse seu ofício. Nem o que sonhava pra si. Mas a fome não mede o porvir…”.

10. DESPERTIÇO-TE-ME. Talvez a faixa mais lenta do álbum. Uma Karina sombria numa versão mais light da Maysa pensando na vida. “Hoje desperdiço-me. Vendo um pedaço da vida passar por mim.”

11. SELVÁTICA. A música é um manifesto. Interessante que Karina deixou a faixa-título pra encerrar o álbum. É, sem dúvida, o arremate do disco.

“Selváticas, elas não necessitam seu elogio
Ela transgride sua orientação

Selvática, ela come a selva de fora
Ela vem da selva de dentro!
Selvática, ela pare a própria hora..”


     Selvática está disponível para download gratuitamente no site da cantora. Torcemos para o álbum inspirar outras/os artistas. Queremos mais Karinas com doses cavalares de selvageria feminista para sacudir a nossa música.

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