CONSCIÊNCIA COLETIVA

A Moda do falso ativismo Capitalista

em Comportamento/LGBTQI/Opinião por

A moda atualmente é uma das partes fundamentais da estrutura do sistema capitalista. A alta rotatividade de tendências é muito mais rápida que há 10 anos: o que é tendência hoje não será daqui a três meses, mas poderá voltar a ser daqui a um ano, gerando assim o consumo desenfreado. Devido a este caráter rápido e descartável de consumo, a moda sempre esteve ligada aos movimentos sociais e urbanos em busca de novidades e estilos que possam ser vendáveis, se apropriando dos discursos vigentes para vender peças, pregando uma falsa ideia de estilo, pertencimento e bem-estar.

As discussões sobre os direitos humanos e das minorias estão mais presentes na nossa sociedade. Percebendo essa movimentação e falta de representatividade, a moda vem criando linhas para conquistar novos consumidores e surpreender os antigos, valendo-se de um falso apoio que só visa ao lucro e ao buzz, e pior, com propostas preguiçosas e mal desenvolvidas.

Pegando carona nos debates de gênero, a Zara – rede mundial de vestuário, famosa por utilizar mão de obra escrava – lançou uma coleção de roupas com o conceito de “sem gênero”, intitulada Ungendered (“sem gênero”), no começo de março deste ano. A campanha apresentava, basicamente, modelos brancos com um perfil meio andrógino vestindo roupas básicas e moletons, cores sóbrias e de modelagens retas. O público nas redes sociais não perdoou e fez várias críticas à coleção, afinal, a Zara não apresentou nenhuma inovação, utilizou o estilo das roupas de sempre, acrescentando apenas uma nova etiqueta. Roupa sem gênero significa cores sóbrias? Sem modelagem? Menina vestindo roupa de menino? O que a Zara apresentou nos faz pensar que a roupa sem gênero precisa anular a feminilidade, presente nas roupas femininas, e imperar a sobriedade das roupas masculinas. A Zara apresenta coleções masculinas muito mais femininas do que na coleção Ungendered. A coleção apresentada é desonesta e pouco se importa com os anseios do público por uma moda mais igualitária e inovadora.

A rede nacional de fast-fashion, C&A, também se apropriou do discurso da moda “sem gênero” e apresentou no mesmo mês da campanha da Zara a sua campanha “Misture, ouse, divirta-se”. Diferente da Zara, a C&A não nos apresentou os modelos vestidos com a mesma peça de roupa. Na loja física e virtual permaneceram divididas as seções por gêneros, e o que a rede mostrou de mais ousado foi um frame do vídeo da campanha em que um modelo parece vestir um vestido. O intuito da campanha seria abrir o debate para a questão de gênero e para que o público se sinta à vontade em ambas as seções divididas por gêneros.

O cliente, nesse caso, pode ir ao provador feminino provar vestidos? O que a C&A nos apresenta é uma proposta rasa e sem compromisso, não aprofunda o debate, não mexe na estrutura, apenas menciona, ausentando-se de toda a responsabilidade. Alguns defendem a campanha como um começo, mas na moda sempre houve meninos vestindo peças ditas femininas e meninas usando roupas masculinas, basta olhar nas passarelas e nas ruas. Quando, então, virá efetivamente uma nova proposta e a tão esperada ruptura?

A rede de lojas Topshop convidou a artista Beyoncé para lançar uma linha de roupas. Em abril, a popstar, que se autointitula feminista e militante negra, lançou a coleção Ivy Park, cuja proposta é empoderar as mulheres usando estampas com letras de música da cantora. Neste mês de maio, o tabloide britânico The Sun publicou a notícia de que a fábrica responsável pela confecção da linha, situada no Sri Lanka, paga apenas cinco euros por dia aos seus funcionários, caracterizando isto como mão de obra escrava, mas vale ressaltar que esta quantia chega a ser ainda superior à média nacional paga no país asiático. A maior responsável por isso é a Topshop, porém não devemos deixar de pensar sobre a presença de Beyoncé dentro deste sistema exploratório do capitalismo que terceiriza a produção de roupas em países mais pobres a fim de obter o lucro. Beyoncé vende o empoderamento nas roupas confeccionadas por mulheres no Sri Lanka que, paradoxalmente, não podem adquirir uma peça sequer, produzida por suas próprias mãos.

Próximo ao dia mundial contra a homofobia, a marca Converse declarou apoio à comunidade LGBT lançando uma linha de três modelos Chuck Taylors estampados com as cores do arco-íris, símbolo da bandeira gay. É sempre bom ter marcas que apoiam as minorias, mas esse apoio deve ser sempre analisado. Quem lucrará mais com esse apoio? A Converse ou a comunidade LGBT? Os gays brancos classe média são um forte público consumidor e estão sempre sendo visados pelas grandes marcas. Nenhum apoio é em vão, nenhuma marca vai associar o seu nome a uma proposta que a faça diminuir seu lucro, o importante é lucrar. Sempre!

A carência e falta de representatividade da minoria leva este público a impressionar-se com qualquer marca que diz apoiar a sua causa, devemos estar atentos aos discursos pregados por estas marcas, e não só isso, devemos estar atentos aos produtos, o que de fato eles oferecem em nosso benefício e como ocorreu o seu processo até chegar à loja. Toda campanha, todo alarde feito por uma marca é bem pensado e pesquisado, nada é feito em vão, tudo é visando o lucro, tanto que estas campanhas não revertem nenhum por cento do seu lucro para projetos que ajudem essas minorias as quais dizem apoiar.

A moda precisa não só trabalhar com linhas menores direcionadas às minorias, mas precisa ser inclusiva e naturalizar as comunidades marginalizadas. Muito mais honesta foi a coleção Pink Beach, da Adidas, feita com colaboração do músico Pharrell Williams, escalando apenas modelos negros na campanha. Não fez alarde, não apresentou uma proposta militante, mas conseguiu buzz por naturalizar a escolha dos modelos. O lucro pelo lucro, porém sem um discurso frágil e desonesto.

João Gusmão é formado em Letras pela UFPE, é professor, corretor e freelancer. Escreve sobre música e comportamento, apreciador de música brasileira e literatura contemporânea. Publica mensalmente no dia 8, save the date | Para segui-lo no Facebook: /joaoagusmao

  • Kevin

    Gostei bastante do texto. Parabéns.

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