CONSCIÊNCIA COLETIVA

Narcos, Pablo Escobar e a Guerra às Drogas

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contém spoilers 

A segunda temporada da série Narcos, protagonizada pelo brasileiro Wagner Moura, estreou na última sexta feira dia 02/09. O desfecho da série obviamente é a morte de Pablo Escobar. Durante muitos anos, Pablo foi o traficante de drogas mais procurado no mundo no início dos anos 90. Com sua habilidade única de lidar com o comércio de entorpecentes, Pablo construiu um império com a venda internacional da cocaína e outras substâncias tidas como ilícita.

Inicialmente tratada como um produto sem grande potencial ofensivo, a cocaína estruturou economias de vários países, principalmente quando o mercado consumidor norte americano ganhou proporções inimagináveis para aquela época em que eram ainda escassos os recursos de comunicação. Quando passou a ameaçar a soberania dos países, a substância passou a ser criminalizada e, antes visto como um mega empresário, Pablo Escobar se transforma num dos maiores criminosos da Colômbia.

Repleta de tramas, desde à corrupção policial até os espaços de afeto entre Pablo e seus familiares, a série Narcos, ambientada na Colômbia, em especial na cidade de Medelín, onde Pablo nasceu e construiu seu império, podemos observar várias nuances políticas por trás da grande bandeira do “combate às drogas”.

A perseguição que Pablo sofreu virou assunto de Estado. Inclusive, há denúncias de aliança do governo colombiano com grupos terroristas e até mesmo outros narcotraficantes para capturar Pablo Escobar. Em outras palavras, personalizaram na figura mítica de Pablo Escobar o início e o fim do comércio de cocaína. Para além de um narcotraficante, teria se transformado numa lenda em que a honra de governos estatais estariam em jogo.

Narrada por um agente do DEA (Drug Enforcement Administration), órgão do governo Norte Americano de combate e repressão às drogas, a série obviamente pouco retrata perspectivas diferentes sobre a vida de Pablo e as razões, por exemplo, dele ser uma figura admirada por milhares de conterrâneos e de inclusive ter sido eleito a um espécie de Deputado Federal com grande apoio das massas populares.

A intenção deste texto não é passar a mão em cima das atrocidades ligadas ao cartel de Pablo Escobar. Contudo, mesmo com perspectivas de narração limitadas para um conto imparcial sobre toda a complexidade em torno da vida de Pablo e da política de drogas estabelecidas no mundo desde então, a série traz reflexões sobre a própria ineficiência de um combate às drogas sob a perspectiva pura e unicamente policial.

Uma das frases finais de Limón, parceiro fiel de Pablo, foi que se a cocaína fosse legalizada, Pablo se tornaria um rei no mundo todo. Estaria novamente listado entre os maiores milionários do planeta enquanto muitas vidas, de policiais, militares e pessoais civis, seriam poupadas na guerra ao tráfico. O que de certa forma não deixa de ser verdade, vide os dados do recente caso do Uruguai na legalização da Maconha.

Obviamente, o debate da legalização das drogas sempre se faz presente em qualquer discussão sobre este tema. A história de Pablo Escobar indica que a verdadeira guerra nunca foi contra às drogas. Se assim o fosse, a parceria com cartéis de cocaína concorrentes ao de Pablo não seriam sido feitas durante a caça ao “Patrón Escobar”. Não haveria tanta interferência e violações da soberania colombiana por parte do governo norte americano nem vista grossa do governo Colombiano perante a ação de grupos terroristas que tinham como objetivo matar Pablo. A Lei e o procedimento legal seriam respeitados e não flexibilizados em torno de um único homem.

Não é de se espantar que, como narra a série, após a captura e morte de Pablo Escobar, o tráfico de cocaína da Colômbia para os Estados Unidos cresceu como nunca antes, além de fortalecer os narco traficantes de cartéis concorrentes ao de Pablo. Se matar um Pablo hoje, amanhã surgem dois novos. Enquanto não se encarar com honestidade o debate da legalização das drogas, vários Pablos irão se estabelecer mundo afora. O que irão diferenciá-los é apenas a narrativa político-criminal estabelecida. E só.

Ítalo é advogado, especialista em Direito do Trabalho e Agente Legislativo. Escreve sobre política e sobre problematizações de cunho social. É apaixonado por debates políticos e enxerga a arte como mecanismo de expressão social de segmentos sociais vulnerabilizados. Publica mensalmente dia 3, save the date | Para segui-lo no Twitter: @Italo_Lopes

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